Álgebra Linear I

Início · Capítulo 7 · Formas multilineares e sequências exatas

Formas multilineares, \(\Alt^k\), produto exterior e contração

22 cards nesta seção
  1. Motivação 7.1Funções de vários vetores, lineares em cada um
  2. Definição 7.2Formas bilineares
  3. Proposição 7.3Matriz de uma forma bilinear
  4. Proposição 7.4Formas simétricas e alternadas
  5. Exemplo 7.5O produto interno como forma bilinear
  6. Exemplo 7.6A forma alternada \(\det(x\ y)\) em \(\R^2\)
  7. Exemplo 7.7O produto de dois funcionais e a sua parte alternada
  8. Definição 7.8Formas \(k\)-lineares alternadas
  9. Proposição 7.9Propriedades das formas alternadas
  10. Definição 7.10Produto exterior de funcionais
  11. Proposição 7.11O produto exterior é alternado e detecta dependência linear
  12. Teorema 7.12Base e dimensão de \(\Alt^k(V)\)
  13. Corolário 7.13\(\dim\Alt^n(V) = 1\): toda forma de grau máximo é múltiplo do determinante
  14. Exemplo 7.14\(\Alt^2(\R^3)\) e o produto vetorial
  15. Exemplo 7.15Uma forma de grau \(2\) que não é produto de dois funcionais
  16. Exercício 7.16Em dimensão ímpar, toda forma alternada tem \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot)=0\)?
  17. Exercício 7.17Em dimensão par, toda forma alternada tem \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot)=0\)?
  18. Definição 7.18Pullback de uma forma por um operador
  19. Proposição 7.19O pullback é linear e inverte a composição
  20. Teorema 7.20\(T\) age em \(\Alt^n(V)\) multiplicando por \(\det T\)
  21. Definição 7.21Contração por um vetor
  22. Proposição 7.22\(\iota_v\circ\iota_v = 0\): a contração forma um complexo
Motivação 7.1

Funções de vários vetores, lineares em cada um

Duas estruturas já vistas são funções de vários vetores, lineares em cada um:

  • o determinante (Teorema 4.6): \(n\)-linear e alternado nas colunas, e único com \(\det(e_1,\ldots,e_n) = 1\);

  • o produto interno (Definição 6.2): bilinear e simétrico.

Todas essas funções podem ser estudadas de uma vez, como elementos de espaços vetoriais.

Definição 7.2

Formas bilineares

Uma forma bilinear em \(V\) é uma função \(\beta:V\times V\to\R\) linear em cada variável. O conjunto delas, \(\operatorname{Bil}(V)\), é um espaço vetorial com as operações ponto a ponto. \(\beta\) é simétrica se \(\beta(u,v) = \beta(v,u)\), e alternada se \(\beta(v,v) = 0\) para todo \(v\).

Proposição 7.3

Matriz de uma forma bilinear

Seja \(B = (v_1,\ldots,v_n)\) base de \(V\) e \(M = [\beta]_B = (\beta(v_i,v_j))_{i,j}\). Então \[\beta(u,v) = [u]_B^t\,M\,[v]_B,\] e \(\beta\mapsto[\beta]_B\) é um isomorfismo \(\operatorname{Bil}(V)\to\Mat{n}{n}\); em particular \(\dim\operatorname{Bil}(V) = n^2\). Se \(P = [I]_{BB'}\), então \([\beta]_{B'} = P^t[\beta]_BP\).

Atenção à fórmula de mudança de base: \(P^tMP\), e não \(P^{-1}MP\) como para operadores (Teorema 3.14). A mesma matriz quadrada pode representar um operador ou uma forma bilinear, e as duas leituras mudam de base de modos diferentes (Definição 9.15).

Demonstração

Com \(u = \sum_ix_iv_i\) e \(v = \sum_jy_jv_j\), a bilinearidade dá \(\beta(u,v) = \sum_{i,j}x_iy_j\beta(v_i,v_j) = x^tMy\). A aplicação \(\beta\mapsto M\) é linear, injetora (se \(M = 0\), a fórmula dá \(\beta = 0\)) e sobrejetora (dada \(M\), a fórmula define uma forma bilinear). Para a mudança de base: \([u]_B = P[u]_{B'}\), logo \(\beta(u,v) = [u]_{B'}^tP^tMP[v]_{B'}\).

Proposição 7.4

Formas simétricas e alternadas

\(\beta\) é simétrica \(\iff[\beta]_B\) é simétrica; \(\beta\) é alternada \(\iff\beta(u,v) = -\beta(v,u)\) para todos \(u,v\) \(\iff[\beta]_B\) é antissimétrica. E \(\operatorname{Bil}(V) = \Simet(V)\oplus\Alt(V)\), com \[\beta = \underbrace{\tfrac12\big(\beta(u,v)+\beta(v,u)\big)}_{\text{simétrica}} +\underbrace{\tfrac12\big(\beta(u,v)-\beta(v,u)\big)}_{\text{alternada}}.\]

Demonstração

Se \(\beta\) é alternada, expandindo \(0 = \beta(u+v,u+v) = \beta(u,v)+\beta(v,u)\). Reciprocamente, \(\beta(v,v) = -\beta(v,v)\) dá \(\beta(v,v) = 0\). As afirmações sobre matrizes são a Proposição 7.3 lida nas entradas. A decomposição é a de \(\Mat{n}{n} = \Simet\oplus\mathcal{A}\) (Exemplo 2.28), transportada pelo isomorfismo.

Exemplo 7.5

O produto interno como forma bilinear

O produto escalar em \(\R^n\) é uma forma bilinear, com matriz \(I\) na base canônica. Um produto interno qualquer é uma forma bilinear simétrica, com \(\beta(v,v)>0\) para \(v\neq0\).

Exemplo 7.6

A forma alternada \(\det(x\ y)\) em \(\R^2\)

\(\omega(x,y) = x_1y_2-x_2y_1 = \det(x\ y)\) em \(\R^2\): alternada, com matriz \(\left(\begin{smallmatrix}0&1\\-1&0\end{smallmatrix}\right)\).

Exemplo 7.7

O produto de dois funcionais e a sua parte alternada

Dados \(\xi,\zeta\in V^*\), \(\beta(u,v) = \xi(u)\zeta(v)\) é bilinear; sua parte alternada é \(\tfrac12\big(\xi(u)\zeta(v)-\xi(v)\zeta(u)\big) = \tfrac12\,(\xi\wedge\zeta)(u,v)\), com a notação da Definição 7.10.

Definição 7.8

Formas \(k\)-lineares alternadas

Uma função \(\omega:V^k\to\R\) é \(k\)-linear se é linear em cada variável, e alternada se \(\omega(u_1,\ldots,u_k) = 0\) sempre que \(u_i = u_j\) para algum \(i\neq j\). O espaço delas é \(\Alt^k(V)\).

Proposição 7.9

Propriedades das formas alternadas

Seja \(\omega\in\Alt^k(V)\).

  1. Trocar duas entradas de lugar muda o sinal de \(\omega\).

  2. Se \(u_1,\ldots,u_k\) são LD, então \(\omega(u_1,\ldots,u_k) = 0\).

  3. Se \(k>\dim V\), então \(\Alt^k(V) = \{0\}\).

figura

A forma \(\omega = \det\) em \(\R^2\) como área orientada. O valor é a área do paralelogramo, com sinal dado pelo sentido de giro de \(u\) para \(v\). Trocar a ordem inverte o sentido (e o sinal); vetores LD geram um paralelogramo achatado, de área nula.

Demonstração

(a) É a conta da Proposição 7.4, feita nas duas entradas trocadas com as outras fixas. (b) Se, digamos, \(u_1 = \sum_{i\geq2}a_iu_i\), a linearidade na primeira entrada dá uma soma de termos \(a_i\,\omega(u_i,u_2,\ldots,u_k)\), cada um com uma entrada repetida. (c) Mais de \(n\) vetores são sempre LD (Corolário 2.81).

Definição 7.10

Produto exterior de funcionais

Dados \(\xi_1,\ldots,\xi_k\in V^*\), o produto exterior deles é a forma \[(\xi_1\wedge\cdots\wedge\xi_k)(u_1,\ldots,u_k) = \det\big(\xi_i(u_j)\big)_{i,j}.\] Para \(k = 2\): \((\xi\wedge\zeta)(u,v) = \xi(u)\zeta(v)-\xi(v)\zeta(u)\).

Proposição 7.11

O produto exterior é alternado e detecta dependência linear

\(\xi_1\wedge\cdots\wedge\xi_k\in\Alt^k(V)\). Ela é \(k\)-linear e alternada também como função dos \(\xi_i\), e é nula se e somente se \(\xi_1,\ldots,\xi_k\) são LD.

Demonstração

Mudar \(u_j\) muda só a coluna \(j\) da matriz \((\xi_i(u_j))\), e linearmente; logo a forma é \(k\)-linear pelo determinante ser linear em cada coluna. Se \(u_j = u_l\), duas colunas são iguais e o determinante é nulo. O mesmo argumento, com as linhas, vale para os \(\xi_i\). Se os \(\xi_i\) são LD, as linhas da matriz são LD para todos os \(u\), e o determinante é nulo. Se são LI, complete-os a uma base de \(V^*\); ela é a base dual de uma base \((u_1,\ldots,u_n)\) de \(V\) (pelo Teorema 5.23, a base de \(V\) é a imagem por \(\mathrm{ev}^{-1}\) da base dual da base de \(V^*\)). Então \(\xi_i(u_j) = \delta_{ij}\) e \((\xi_1\wedge\cdots\wedge\xi_k)(u_1,\ldots,u_k) = \det I = 1\).

Teorema 7.12

Base e dimensão de \(\Alt^k(V)\)

Para \(I = (i_1<\cdots<i_k)\) e uma base \((v_1,\ldots,v_n)\) de \(V\), escrevemos \(v_I^* = v_{i_1}^*\wedge\cdots\wedge v_{i_k}^*\) e \(v_I = (v_{i_1},\ldots,v_{i_k})\).

Seja \(B = (v_1,\ldots,v_n)\) base de \(V\). Toda \(\omega\in\Alt^k(V)\) se escreve de modo único como \[\omega = \sum_{i_1<\cdots<i_k}\omega(v_{i_1},\ldots,v_{i_k})\ v_{i_1}^*\wedge\cdots\wedge v_{i_k}^*.\] Logo \(\{v_I^*\}_{I\text{ crescente}}\) é base de \(\Alt^k(V)\) e \(\dim\Alt^k(V) = \binom nk\).

figura

As dimensões dos \(\Alt^k(\R^4)\): uma linha do triângulo de Pascal. Cada elemento da base corresponde a uma escolha de \(k\) índices crescentes. Em grau máximo há uma só escolha, e o espaço é uma reta gerada pelo determinante.

Demonstração

Um cálculo: para \(I,J\) crescentes, \(v_I^*(v_J) = \det\big(v_{i_a}^*(v_{j_b})\big)\). Se \(I = J\), a matriz é a identidade. Se \(I\neq J\), algum \(i_a\) não está em \(J\), e a linha \(a\) é nula. Logo \(v_I^*(v_J) = \delta_{IJ}\).

Gera: seja \(\eta = \sum_I\omega(v_I)v_I^*\). Pelo cálculo, \(\eta(v_J) = \omega(v_J)\) para toda \(J\) crescente. Uma \(k\)-upla qualquer de vetores da base ou tem repetição (e as duas formas dão zero), ou se reordena numa crescente trocando entradas (e as duas formas mudam de sinal do mesmo modo). Logo \(\eta\) e \(\omega\) coincidem em todas as \(k\)-uplas de vetores da base, e por \(k\)-linearidade coincidem em tudo.

LI: se \(\sum_Ic_Iv_I^* = 0\), avaliando em \(v_J\) vem \(c_J = 0\).

Corolário 7.13

\(\dim\Alt^n(V) = 1\): toda forma de grau máximo é múltiplo do determinante

\(\dim\Alt^n(V) = 1\). Em \(\R^n\), a forma \(e_1^*\wedge\cdots\wedge e_n^*\) é \(\det\), e toda forma \(n\)-linear alternada é um múltiplo dela.

Este corolário é o Teorema 4.5, demonstrado de outra forma: lá, uma forma \(n\)-linear alternada com \(\omega(e_1,\ldots,e_n) = 1\) era única; aqui, o espaço dessas formas tem dimensão \(1\). A demonstração do Teorema 7.12 é a do Teorema 4.5 (“reordene e use a linearidade”), feita para \(k\) qualquer.

Demonstração

\((e_1^*\wedge\cdots\wedge e_n^*)(u_1,\ldots,u_n) = \det\big(e_i^*(u_j)\big) = \det(u_1\ \cdots\ u_n)\), porque \(e_i^*(u_j)\) é a \(i\)-ésima coordenada de \(u_j\).

Exemplo 7.14

\(\Alt^2(\R^3)\) e o produto vetorial

\(\Alt^2(\R^3)\) e o produto vetorial. \(\dim\Alt^2(\R^3) = 3 = \dim\R^3\). Um isomorfismo explícito: a cada \(u\in\R^3\) associe \[\omega_u(x,y) = \det(u\ x\ y).\] Na base, \(\omega_{e_1} = e_2^*\wedge e_3^*\), \(\omega_{e_2} = e_3^*\wedge e_1^*\), \(\omega_{e_3} = e_1^*\wedge e_2^*\) (confira nos pares \((e_i,e_j)\)). E pela expansão de Laplace na primeira coluna, \[\omega_u(x,y) = \langle u,\ x\times y\rangle,\] onde \(x\times y = (x_2y_3-x_3y_2,\ x_3y_1-x_1y_3,\ x_1y_2-x_2y_1)\) é o produto vetorial. Assim o produto vetorial é uma forma alternada de grau \(2\) disfarçada de vetor, pelo isomorfismo \(u\mapsto\omega_u\) e pelo produto interno. Esse disfarce só é possível porque \(\binom32 = 3\); em \(\R^4\), \(\binom42 = 6\neq4\).

figura

O volume orientado do paralelepípedo de \(u,x,y\) é a área da base (o paralelogramo de \(x,y\)) vezes a altura de \(u\) na direção perpendicular. O produto vetorial \(x\times y\) é o vetor perpendicular à base com comprimento igual à área; a altura vezes a área é o produto interno com ele.

Em movimento: Cross products · Cross products in the light of linear transformations — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Exemplo 7.15

Uma forma de grau \(2\) que não é produto de dois funcionais

Em \(\R^4\), seja \(\omega = e_1^*\wedge e_2^*+e_3^*\wedge e_4^*\). Ela não é da forma \(\xi\wedge\zeta\). Suponha que fosse. O subespaço \(N(\xi)\cap N(\zeta)\) tem dimensão \(\geq2\) (Teorema 2.85 e Proposição 5.7), e para \(v\) nele, \[\omega(v,y) = \xi(v)\zeta(y)-\xi(y)\zeta(v) = 0\qquad\text{para todo } y.\] Mas a matriz de \(\omega\) na base canônica é \[\begin{pmatrix}0&1&0&0\\-1&0&0&0\\0&0&0&1\\0&0&-1&0\end{pmatrix},\] que é invertível; e \(\omega(v,y) = 0\) para todo \(y\) diz \(v^tM = 0\), isto é, \(v = 0\). Contradição.

Exercício 7.16

Em dimensão ímpar, toda forma alternada tem \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot)=0\)?

Verdadeiro ou falso? Se \(\dim V\) é ímpar e \(\omega\) é uma forma bilinear alternada em \(V\), então existe \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot) = 0\).

Resolução

Verdadeira. Seja \(M\) a matriz de \(\omega\) numa base (Proposição 7.3); \(M\) é antissimétrica, \(n\times n\) com \(n\) ímpar. Então \[\det M = \det M^t = \det(-M) = (-1)^n\det M = -\det M,\] logo \(\det M = 0\), e existe \(x\neq0\) com \(M^tx = 0\). O vetor \(v\) com \([v] = x\) satisfaz \(\omega(v,u) = x^tM[u] = (M^tx)^t[u] = 0\) para todo \(u\).

Exercício 7.17

Em dimensão par, toda forma alternada tem \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot)=0\)?

Verdadeiro ou falso? Se \(\dim V\) é par e \(\omega\) é uma forma bilinear alternada em \(V\), então existe \(v\neq0\) com \(\omega(v,\cdot) = 0\).

Resolução

Falsa. Em \(\R^2\), \(\omega(x,y) = \det(x\ y)\) tem matriz \(\left(\begin{smallmatrix}0&1\\-1&0\end{smallmatrix}\right)\), invertível: \(\omega(v,\cdot) = 0\) só para \(v = 0\). (Em \(\R^4\), a forma \(e_1^*\wedge e_2^*+e_3^*\wedge e_4^*\) do Exemplo 7.15.)

Definição 7.18

Pullback de uma forma por um operador

Seja \(T:V\to V\) linear. Para \(\omega\in\Alt^k(V)\), o pullback de \(\omega\) por \(T\) é \[(T^\sharp\omega)(u_1,\ldots,u_k) = \omega\big(T(u_1),\ldots,T(u_k)\big).\]

Proposição 7.19

O pullback é linear e inverte a composição

\(T^\sharp\) é um operador linear em \(\Alt^k(V)\), e \((S\circ T)^\sharp = T^\sharp\circ S^\sharp\).

Demonstração

\(T^\sharp\omega\) é \(k\)-linear (composição com \(T\) em cada entrada) e alternada (entradas iguais continuam iguais depois de \(T\)). Linearidade em \(\omega\): as operações são ponto a ponto. Composição: \(((S\circ T)^\sharp\omega)(u) = \omega(STu_1,\ldots) = (S^\sharp\omega)(Tu_1,\ldots) = (T^\sharp S^\sharp\omega)(u)\).

Teorema 7.20

\(T\) age em \(\Alt^n(V)\) multiplicando por \(\det T\)

Seja \(\dim V = n\). Existe um número \(c(T)\) tal que \(T^\sharp\omega = c(T)\,\omega\) para toda \(\omega\in\Alt^n(V)\), e \(c(T) = \det T\). Em consequência, \(\det(S\circ T) = \det S\cdot\det T\).

figura

O determinante como fator de volume. \(T^\sharp\omega = (\det T)\,\omega\) diz que \(T\) multiplica todo volume orientado pelo mesmo número. Daí \(\det(ST) = \det S\det T\): aplicar \(T\) e depois \(S\) multiplica os volumes pelos dois fatores.

No Teorema 4.21, \(\det(AB) = \det A\det B\) foi demonstrado com matrizes; aqui ele é consequência de “operador linear numa reta é multiplicação por um número” e de \((ST)^\sharp = T^\sharp S^\sharp\). E o determinante de um operador é definido sem base nenhuma: \(\det T\) é o número pelo qual \(T\) age em \(\Alt^n(V)\). A independência de base, que antes exigiu \(\det(P^{-1}AP) = \det A\) (Corolário 4.22), vem de graça.

Demonstração

\(\Alt^n(V)\) tem dimensão \(1\), e todo operador linear num espaço de dimensão \(1\) é a multiplicação por um número: se \(\omega_0\neq0\), \(T^\sharp\omega_0 = c\,\omega_0\) para algum \(c\), e então \(T^\sharp(\lambda\omega_0) = c\,\lambda\omega_0\). Para calcular \(c\), tome uma base \(B = (v_1,\ldots,v_n)\) e \(\omega_B = v_1^*\wedge\cdots\wedge v_n^*\), que vale \(\omega_B(u_1,\ldots,u_n) = \det([u_1]_B\ \cdots\ [u_n]_B)\) (como no Corolário 7.13). Então \[c(T) = c(T)\,\omega_B(v_1,\ldots,v_n) = \omega_B(Tv_1,\ldots,Tv_n) = \det\big([Tv_1]_B\ \cdots\ [Tv_n]_B\big) = \det[T]_B.\] Finalmente, pela Proposição 7.19, \(c(S\circ T)\,\omega = T^\sharp S^\sharp\omega = c(S)c(T)\,\omega\).

Definição 7.21

Contração por um vetor

Dado \(v\in V\), a contração por \(v\) é \(\iota_v:\Alt^k(V)\to\Alt^{k-1}(V)\), \[(\iota_v\omega)(u_1,\ldots,u_{k-1}) = \omega(v,u_1,\ldots,u_{k-1}),\] com \(\iota_v = 0\) em \(\Alt^0(V) = \R\).

Proposição 7.22

\(\iota_v\circ\iota_v = 0\): a contração forma um complexo

\(\iota_v\) é linear, e \(\iota_v\circ\iota_v = 0\).

Assim a sequência \[0\to\Alt^n(V)\xrightarrow{\iota_v}\Alt^{n-1}(V)\xrightarrow{\iota_v}\cdots \xrightarrow{\iota_v}\Alt^1(V)\xrightarrow{\iota_v}\Alt^0(V)\to0\] tem a propriedade de que a composta de duas setas consecutivas é nula: é um complexo. Em \(\R^3\), identificando os \(\Alt^k\) com \(\R^3\) ou \(\R\) como no Exemplo 7.14, as setas são \(a\mapsto av\), \(w\mapsto w\times v\) e \(w\mapsto\langle v,w\rangle\); e \(\iota_v\circ\iota_v = 0\) diz, por exemplo, \((av)\times v = 0\) e \(\langle v,w\times v\rangle = 0\).

Nesse complexo (Definição 7.23), a imagem de cada seta está contida no núcleo da seguinte. Se \(v\neq0\), são iguais: é a Proposição 7.34.

Demonstração

A linearidade é a de \(\omega\) nas entradas \(2\) a \(k\). E, por \(\omega\) ser alternada, \[(\iota_v\iota_v\omega)(u_1,\ldots,u_{k-2}) = \omega(v,v,u_1,\ldots,u_{k-2}) = 0.\]