Álgebra Linear I

Início · Capítulo 8 · Autovalores e diagonalização

Diagonalização

15 cards nesta seção
  1. Definição 8.22Operador diagonalizável
  2. Teorema 8.23Critério de diagonalização
  3. Corolário 8.24\(n\) autovalores distintos bastam para diagonalizar
  4. Nota 8.25Um operador diagonalizável estica cada eixo próprio
  5. Definição 8.26Multiplicidade algébrica e multiplicidade geométrica
  6. Proposição 8.27\(1\leq\mathrm{mg}\leq\mathrm{ma}\)
  7. Corolário 8.28Diagonalizável: raízes reais e \(\mathrm{mg} = \mathrm{ma}\)
  8. Exemplo 8.29Uma matriz \(2\times2\) que não é diagonalizável
  9. Exemplo 8.30Uma matriz \(3\times3\) diagonalizável com autovalor duplo
  10. Exemplo 8.31Raízes reais, mas não diagonalizável
  11. Proposição 8.32Potências de uma matriz diagonalizável
  12. Exemplo 8.33Potências, inversa e raízes quadradas por diagonalização
  13. Exemplo 8.34Fibonacci por diagonalização
  14. Exercício 8.35Multiplicidade algébrica \(1\) implica autoespaço de dimensão \(1\)?
  15. Exercício 8.36Autoespaço de dimensão \(1\) implica multiplicidade algébrica \(1\)?
Definição 8.22

Operador diagonalizável

\(T:V\to V\) é diagonalizável se existe uma base \(B\) de \(V\) com \([T]_B\) diagonal. Uma matriz \(A\) é diagonalizável se existem \(P\) invertível e \(D\) diagonal com \(A = PDP^{-1}\) (isto é, se \(T_A\) é diagonalizável; Corolário 3.16).

Fibonacci: as potências de A e o autovetor dominante

Em movimento: Eigenvectors and eigenvalues — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Teorema 8.23

Critério de diagonalização

Sejam \(\lambda_1,\ldots,\lambda_k\) os autovalores distintos de \(T\), com \(\dim V = n\). São equivalentes:

  1. \(T\) é diagonalizável;

  2. \(V\) tem uma base formada por autovetores de \(T\);

  3. \(V = V_{\lambda_1}\oplus\cdots\oplus V_{\lambda_k}\);

  4. \(\dim V_{\lambda_1}+\cdots+\dim V_{\lambda_k} = n\).

Demonstração

(a)\(\iff\)(b): \([T]_B = \mathrm{diag}(c_1,\ldots,c_n)\) significa \(T(v_j) = c_jv_j\) para cada \(j\) (Nota 3.18), isto é, cada \(v_j\) é autovetor.

(b)\(\Rightarrow\)(d): cada vetor da base está em algum \(V_{\lambda_i}\), e os que estão em \(V_{\lambda_i}\) são LI; logo \(\dim V_{\lambda_i}\geq\) número deles, e somando, \(\sum_i\dim V_{\lambda_i}\geq n\). A soma dos autoespaços é direta (Corolário 8.16), logo tem dimensão \(\sum_i\dim V_{\lambda_i}\leq n\).

(d)\(\Rightarrow\)(c): a soma é direta, e sua dimensão é \(n\); um subespaço de dimensão \(n\) é \(V\) (Corolário 2.82).

(c)\(\Rightarrow\)(b): junte bases dos \(V_{\lambda_i}\); numa soma direta, a junção de bases é base (Corolário 2.86).

Corolário 8.24

\(n\) autovalores distintos bastam para diagonalizar

Se \(T\) tem \(n\) autovalores distintos, \(T\) é diagonalizável. A recíproca é falsa.

Demonstração

Cada \(\dim V_{\lambda_i}\geq1\), e há \(n\) deles: a soma é \(\geq n\), logo \(= n\). Para a recíproca: a identidade é diagonal e tem um só autovalor.

Nota 8.25

Um operador diagonalizável estica cada eixo próprio

figura

Um operador diagonalizável estica (ou encolhe) cada eixo próprio por um fator, independentemente dos outros. O círculo vira uma elipse com os eixos nas direções dos autovetores. O desenho é o de \(B = \left(\begin{smallmatrix}2&1\\1&2\end{smallmatrix}\right)\) (fatores \(3\) e \(1\), Exemplo 8.12); \(A = B^2\) tem os mesmos eixos e fatores \(9\) e \(1\) (Exemplo 8.33).

É o que dá sentido à palavra “diagonal”: nas coordenadas dadas pelos dois eixos coloridos, \(A\) multiplica a primeira coordenada por \(9\) e a segunda por \(1\), sem misturar.

Definição 8.26

Multiplicidade algébrica e multiplicidade geométrica

Seja \(\lambda_0\) autovalor de \(T\). A multiplicidade algébrica \(\mathrm{ma}(\lambda_0)\) é a multiplicidade de \(\lambda_0\) como raiz de \(p_T\); a multiplicidade geométrica \(\mathrm{mg}(\lambda_0)\) é \(\dim V_{\lambda_0}\).

Proposição 8.27

\(1\leq\mathrm{mg}\leq\mathrm{ma}\)

\(1\leq\mathrm{mg} (\lambda_0)\leq\mathrm{ma}(\lambda_0)\).

figura

Por que \(\mathrm{mg}\leq\mathrm{ma}\). Numa base que começa pelo autoespaço, o bloco verde contribui \((\lambda_0-\lambda)^g\) ao polinômio característico. O bloco azul pode contribuir mais fatores \((\lambda_0-\lambda)\) — no exemplo \(\left(\begin{smallmatrix}1&1\\0&1\end{smallmatrix}\right)\), \(C = (1)\) contribui um.

Demonstração

\(\mathrm{mg}\geq1\) porque \(\lambda_0\) é autovalor. Seja \(g = \dim V_{\lambda_0}\) e complete uma base de \(V_{\lambda_0}\) a uma base \(B\) de \(V\). Como \(V_{\lambda_0}\) é invariante e \(T\) age nele como \(\lambda_0I\), a matriz é triangular por blocos (Proposição 5.56): \[[T]_B = \begin{pmatrix}\lambda_0I_g&\ast\\0&C\end{pmatrix},\qquad p_T(\lambda) = (\lambda_0-\lambda)^g\,p_C(\lambda),\] pelo determinante de matriz triangular por blocos (Proposição 4.28). Logo \((\lambda-\lambda_0)^g\) divide \(p_T\), e \(\mathrm{ma}\geq g\).

Corolário 8.28

Diagonalizável: raízes reais e \(\mathrm{mg} = \mathrm{ma}\)

\(T\) é diagonalizável se e somente se \(p_T\) se fatora em fatores lineares reais e \(\mathrm{mg}(\lambda_i) = \mathrm{ma}(\lambda_i)\) para todo autovalor.

Demonstração

Se \(p_T = \pm\prod_i(\lambda-\lambda_i)^{m_i}\), então \(\sum_im_i = n\), e \(\sum_i\dim V_{\lambda_i}\leq\sum_im_i = n\) com igualdade se e somente se cada \(\dim V_{\lambda_i} = m_i\). Se \(p_T\) não se fatora sobre \(\R\), \(\sum_im_i<n\) e o Teorema 8.23(d) falha.

Exemplo 8.29

Uma matriz \(2\times2\) que não é diagonalizável

\(J = \left(\begin{smallmatrix}1&1\\0&1\end{smallmatrix}\right)\): \(p_J = (1-\lambda)^2\), \(\mathrm{ma}(1) = 2\), mas \(J-I = \left(\begin{smallmatrix}0&1\\0&0\end{smallmatrix}\right)\) tem núcleo \([e_1]\): \(\mathrm{mg}(1) = 1\). Não é diagonalizável. (Se fosse, seria \(P\,I\,P^{-1} = I\).)

Exemplo 8.30

Uma matriz \(3\times3\) diagonalizável com autovalor duplo

\(A = \begin{pmatrix}4&0&1\\2&3&2\\1&0&4\end{pmatrix}\): desenvolvendo pela segunda coluna, \(p_A = (3-\lambda)\big((4-\lambda)^2-1\big) = (3-\lambda)^2(5-\lambda)\). Para \(\lambda = 3\), \(A-3I = \left(\begin{smallmatrix}1&0&1\\2&0&2\\1&0&1\end{smallmatrix}\right)\) tem posto \(1\), logo \(\mathrm{mg}(3) = 2 = \mathrm{ma}(3)\), com \(V_3 = [(0,1,0),(-1,0,1)]\); e \(V_5 = [(1,2,1)]\). Diagonalizável.

Exemplo 8.31

Raízes reais, mas não diagonalizável

\(A' = \begin{pmatrix}3&-1&1\\2&0&1\\1&-1&2\end{pmatrix}\): \(p_{A'} = (2-\lambda)^2(1-\lambda)\), mas \(A'-2I = \left(\begin{smallmatrix}1&-1&1\\2&-2&1\\1&-1&0 \end{smallmatrix}\right)\) tem posto \(2\), logo \(\mathrm{mg}(2) = 1<2\). Não é diagonalizável, embora \(p_{A'}\) tenha todas as raízes reais.

Proposição 8.32

Potências de uma matriz diagonalizável

Se \(A = PDP^{-1}\) com \(D = \mathrm{diag}(\lambda_1,\ldots,\lambda_n)\), então \(A^k = PD^kP^{-1}\) para todo \(k\geq0\), e \(D^k = \mathrm{diag}(\lambda_1^k,\ldots,\lambda_n^k)\). Se todos os \(\lambda_i\neq0\), isso vale também para \(k<0\).

figura

O desvio do Teorema 3.14, agora com propósito: para calcular \(A^k\), passe às coordenadas em que \(A\) é diagonal, eleve \(n\) números à potência \(k\), e volte.

Demonstração

Temos \(A^2 = PDP^{-1}PDP^{-1} = PD^2P^{-1}\), e o resto é indução. Para \(k = -1\), basta ver que \((PDP^{-1})(PD^{-1}P^{-1}) = I\).

Exemplo 8.33

Potências, inversa e raízes quadradas por diagonalização

\(A = \left(\begin{smallmatrix}5&4\\ 4&5\end{smallmatrix}\right)\): \(p_A = (5-\lambda)^2-16 = (\lambda-9)(\lambda-1)\), \(V_9 = [(1,1)]\), \(V_1 = [(1,-1)]\). Com \[P = \begin{pmatrix}1&1\\1&-1\end{pmatrix},\quad D = \begin{pmatrix}9&0\\0&1\end{pmatrix},\quad P^{-1} = \frac12\begin{pmatrix}1&1\\1&-1\end{pmatrix}:\]

  • \(A^{100} = PD^{100}P^{-1} = \dfrac12\begin{pmatrix}9^{100}+1&9^{100}-1\\ 9^{100}-1&9^{100}+1\end{pmatrix}\).

  • \(A^{-1} = PD^{-1}P^{-1} = \dfrac19\begin{pmatrix}5&-4\\-4&5\end{pmatrix}\) (confira: \(AA^{-1} = I\)).

  • Uma raiz quadrada: \(B = P\,\mathrm{diag}(3,1)\,P^{-1} = \begin{pmatrix}2&1\\1&2\end{pmatrix}\), e de fato \(B^2 = A\). É a matriz do Exemplo 8.12.

Quantas raízes quadradas \(A\) tem? Se \(B^2 = A\), então \(BA = B^3 = AB\), e \(B\) preserva os autoespaços de \(A\) (Proposição 8.46); como eles têm dimensão \(1\), \(B\) é diagonal na base \(P\), com \(B = P\,\mathrm{diag}(\pm3,\pm1)\,P^{-1}\). São exatamente quatro.

Na fórmula de \(A^{100}\), o termo \(9^{100}\) domina: \(A^{100}\) é praticamente \(\frac{9^{100}}{2}\left(\begin{smallmatrix}1&1\\1&1\end{smallmatrix}\right)\), uma matriz de posto \(1\) que projeta sobre \(V_9\). É o fenômeno do autovalor dominante, que reaparece no Exemplo 8.34.

Exemplo 8.34

Fibonacci por diagonalização

\(F_0 = 0\), \(F_1 = 1\), \(F_{n+1} = F_n+F_{n-1}\). Em forma matricial, \[\begin{pmatrix}F_{n+1}\\F_n\end{pmatrix} = A\begin{pmatrix}F_n\\F_{n-1}\end{pmatrix},\qquad A = \begin{pmatrix}1&1\\1&0\end{pmatrix},\qquad\text{logo}\qquad \begin{pmatrix}F_{n+1}\\F_n\end{pmatrix} = A^n\begin{pmatrix}1\\0\end{pmatrix}.\] \(p_A = \lambda^2-\lambda-1\), com raízes \(\varphi = \frac{1+\sqrt5}{2}\) e \(\psi = \frac{1-\sqrt5}{2}\). Como \(\lambda^2 = \lambda+1\) para essas raízes, os autovetores são \((\varphi,1)\) e \((\psi,1)\) (confira: \(A(\lambda,1) = (\lambda+1,\lambda) = \lambda(\lambda,1)\)). Escrevendo o vetor inicial nessa base, \[\begin{pmatrix}1\\0\end{pmatrix} = \frac{1}{\sqrt5}\left[\begin{pmatrix}\varphi\\1\end{pmatrix} -\begin{pmatrix}\psi\\1\end{pmatrix}\right],\] porque \(\varphi-\psi = \sqrt5\). Aplicando \(A^n\), cada autovetor se multiplica pela potência do seu autovalor, e a segunda coordenada dá \[F_n = \frac{\varphi^n-\psi^n}{\sqrt5}.\] Como \(|\psi|<1\), \(\psi^n\to0\), e \(F_{n+1}/F_n\to\varphi\): a razão áurea é o autovalor dominante.

figura

Os pares \((F_{n+1},F_n)\) são as potências \(A^n(1,0)\). A componente na direção de \((\psi,1)\) encolhe (fator \(|\psi|\approx0{,}62\)) e a na direção de \((\varphi,1)\) cresce (fator \(\varphi\approx1{,}62\)): os pontos se alinham rapidamente com a reta \(V_\varphi\), cuja inclinação é \(1/\varphi\).

Por exemplo, \(F_{10} = 55\) pela fórmula, com \(\varphi^{10}\approx122{,}99\): a expressão com \(\sqrt5\) dá sempre inteiros. Toda recorrência linear de coeficientes constantes se resolve assim.

Exercício 8.35

Multiplicidade algébrica \(1\) implica autoespaço de dimensão \(1\)?

Verdadeiro ou falso? Se \(\lambda\) é autovalor de \(T\) com multiplicidade algébrica \(1\), então \(\dim V_\lambda = 1\).

Resolução

Verdadeira. Pela Proposição 8.27, \(1\leq\dim V_\lambda\leq1\).

Exercício 8.36

Autoespaço de dimensão \(1\) implica multiplicidade algébrica \(1\)?

Verdadeiro ou falso? Se \(\dim V_\lambda = 1\), então \(\lambda\) tem multiplicidade algébrica \(1\).

Resolução

Falsa. A matriz do Exemplo 8.29, \(J = \left(\begin{smallmatrix}1&1\\0&1\end{smallmatrix}\right)\) tem \(\dim V_1 = 1\) e \(p_J = (1-\lambda)^2\).