Álgebra Linear I

Início · Capítulo 8 · Autovalores e diagonalização

Cayley–Hamilton e polinômio mínimo

16 cards nesta seção
  1. Nota 8.53Escalares complexos
  2. Teorema 8.54Triangularização
  3. Corolário 8.55Traço e determinante: soma e produto das raízes de \(p_T\)
  4. Exemplo 8.56Cayley–Hamilton para matrizes \(2\times2\)
  5. Teorema 8.57Teorema de Cayley–Hamilton
  6. Nota 8.58Uma “demonstração” falsa de Cayley–Hamilton
  7. Corolário 8.59Potências e inversa como polinômios em \(A\)
  8. Exemplo 8.60A inversa de uma matriz \(3\times3\) por Cayley–Hamilton
  9. Exemplo 8.61Potências da matriz de Fibonacci
  10. Teorema 8.62Polinômio mínimo
  11. Exemplo 8.63Polinômio mínimo da identidade, de idempotentes e de nilpotentes
  12. Exemplo 8.64Mesmo polinômio característico, polinômios mínimos diferentes
  13. Teorema 8.65Diagonalizável se e somente se \(m_T\) tem raízes reais simples
  14. Corolário 8.66Involuções e projeções são diagonalizáveis
  15. Exercício 8.67Todo operador idempotente é diagonalizável?
  16. Exercício 8.68Se \(T^2\) é diagonalizável, então \(T\) é diagonalizável?
Nota 8.53

Escalares complexos

O teorema fundamental da álgebra dá raízes complexas de \(p_T\). E todas as definições e resultados sobre espaços vetoriais, transformações lineares, determinantes e autovalores valem sobre \(\Cx\) sem mudança, trocando \(\R\) por \(\Cx\) como corpo de escalares.

Teorema 8.54

Triangularização

Seja \(T:V\to V\), com \(V\) complexo de dimensão \(n\) — ou com \(V\) real e \(p_T\) se fatorando em fatores lineares reais. Existe uma base \(B = (v_1,\ldots,v_n)\) com \([T]_B\) triangular superior. Equivalentemente, os subespaços \(W_j = [v_1,\ldots,v_j]\) são todos invariantes.

figura

Forma triangular e bandeira invariante: a matriz é triangular superior na base \((v_1,\ldots,v_n)\) exatamente quando cada \(W_j = [v_1,\ldots,v_j]\) é invariante. A diagonal traz os autovalores, com multiplicidade.

A estratégia da demonstração é a mesma do teorema espectral (Teorema 9.5): ache um autovetor, passe ao quociente (ou ao complemento ortogonal), use indução.

Demonstração

Indução em \(n\); para \(n = 1\) não há o que fazer. Pela hipótese, \(p_T\) tem uma raiz \(\mu_1\), que é autovalor; seja \(v_1\) um autovetor. A reta \([v_1]\) é invariante, e \(T\) induz \(\bar T\) em \(V/[v_1]\), de dimensão \(n-1\) (Proposição 5.56). Como \(p_T = (\mu_1-\lambda)\,p_{\bar T}\) (Proposição 8.43), \(p_{\bar T}\) também se fatora. Pela hipótese de indução há uma base \((\bar v_2,\ldots,\bar v_n)\) de \(V/[v_1]\) em que \([\bar T]\) é triangular superior; escolha representantes \(v_2,\ldots,v_n\). Então \((v_1,\ldots,v_n)\) é base de \(V\) (Proposição 5.42), e \(T(v_j)\equiv\) combinação de \(v_2,\ldots,v_j\) módulo \([v_1]\), isto é, \(T(v_j)\in[v_1,\ldots,v_j]\): a matriz é triangular superior.

Corolário 8.55

Traço e determinante: soma e produto das raízes de \(p_T\)

As entradas diagonais \(\mu_1,\ldots,\mu_n\) de uma forma triangular são as raízes de \(p_T\) com multiplicidade. Portanto \(\tr T = \sum_i\mu_i\) e \(\det T = \prod_i\mu_i\) (somas e produtos das raízes complexas de \(p_T\)).

Demonstração

\(p_T(\lambda) = \det([T]_B-\lambda I) = \prod_i(\mu_i-\lambda)\), determinante de triangular.

Em movimento: A quick trick for computing eigenvalues — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Exemplo 8.56

Cayley–Hamilton para matrizes \(2\times2\)

Para \(A = \left(\begin{smallmatrix}a&b\\c&d \end{smallmatrix}\right)\), \(p_A(\lambda) = \lambda^2-(a+d)\lambda+(ad-bc)\), e uma conta direta dá \[A^2-(a+d)A+(ad-bc)I = \begin{pmatrix}a^2+bc&ab+bd\\ac+cd&bc+d^2\end{pmatrix} -\begin{pmatrix}a^2+ad&ab+bd\\ac+cd&ad+d^2\end{pmatrix}+\begin{pmatrix}ad-bc&0\\0&ad-bc \end{pmatrix} = 0.\]

Teorema 8.57

Teorema de Cayley–Hamilton

A demonstração exigeTeorema 8.54Triangularização

Para todo operador \(T\) em dimensão finita, \(p_T(T) = 0\).

Demonstração

Primeiro sobre \(\Cx\). Pelo Teorema 8.54, há uma base com \([T]\) triangular superior, com diagonal \(\mu_1,\ldots,\mu_n\), e \(p_T(\lambda) = \prod_i(\mu_i-\lambda)\); logo \(p_T(T) = \pm(T-\mu_1I)\cdots(T-\mu_nI)\). Afirmamos que \[(T-\mu_1I)\cdots(T-\mu_jI)\ \text{anula}\ W_j\qquad(j = 1,\ldots,n).\] Para \(j = 1\): \(v_1\) é autovetor de \(\mu_1\). Suponha para \(j-1\). A coluna \(j\) da matriz diz que \(T(v_j) = \mu_jv_j+(\text{algo em }W_{j-1})\), isto é, \((T-\mu_jI)v_j\in W_{j-1}\); e \((T-\mu_jI)W_{j-1}\subset W_{j-1}\) porque \(W_{j-1}\) é invariante. Logo \((T-\mu_jI)W_j\subset W_{j-1}\). Como polinômios em \(T\) comutam, \[\begin{align*} (T-\mu_1I)\cdots(T-\mu_jI)W_j &= (T-\mu_1I)\cdots(T-\mu_{j-1}I)\big[(T-\mu_jI)W_j\big]\\ &\subset(T-\mu_1I)\cdots(T-\mu_{j-1}I)W_{j-1} = 0. \end{align*}\] Com \(j = n\), \(W_n = V\) e \(p_T(T) = 0\).

Caso real. Se \(A\) é uma matriz real, ela também é complexa, com o mesmo polinômio característico; a identidade \(p_A(A) = 0\) entre matrizes vale sobre \(\Cx\), e as entradas são reais.

figura

A demonstração de Cayley–Hamilton como uma escada (\(n = 4\)). O fator \(T-\mu_jI\) leva \(W_j\) para dentro de \(W_{j-1}\), porque o último vetor da base de \(W_j\) é autovetor “módulo \(W_{j-1}\)”. Depois de todos os fatores, não sobra nada.

Nota 8.58

Uma “demonstração” falsa de Cayley–Hamilton

A conta \(p_A(A) = \det(A-A\cdot I) = \det 0 = 0\) não demonstra o Teorema 8.57. Onde está o erro? \(p_A(A)\) é uma matriz, obtida substituindo \(\lambda\) por \(A\) no polinômio \(\det(A-\lambda I)\) já expandido; \(\det(A-A)\) é um número. O lado esquerdo e o direito nem são do mesmo tipo.

Corolário 8.59

Potências e inversa como polinômios em \(A\)

Se \(A\) é \(n\times n\), toda potência \(A^m\) com \(m\geq n\) é combinação linear de \(I,A,\ldots,A^{n-1}\). Se \(A\) é invertível, \(A^{-1}\) é um polinômio em \(A\) de grau \(\leq n-1\).

Demonstração

\(p_A(A) = 0\) exprime \(A^n\) em termos de potências menores; multiplicando por \(A\) e repetindo, o mesmo vale para \(A^m\). Se \(A\) é invertível, o termo constante de \(p_A\) é \(\det A\neq0\); escrevendo \(p_A(A) = A\,q(A)+(\det A)I = 0\), vem \(A^{-1} = -\frac{1}{\det A}\,q(A)\).

Exemplo 8.60

A inversa de uma matriz \(3\times3\) por Cayley–Hamilton

\(A = \begin{pmatrix}1&1&0\\0&1&1\\0&0&2\end{pmatrix}\): \(p_A = (1-\lambda)^2(2-\lambda) = -(\lambda^3-4\lambda^2+5\lambda-2)\). Então \(A^3-4A^2+5A = 2I\), isto é, \(A\,(A^2-4A+5I) = 2I\), e \[A^{-1} = \tfrac12(A^2-4A+5I) = \begin{pmatrix}1&-1&\frac12\\0&1&-\frac12\\0&0&\frac12 \end{pmatrix}.\]

Exemplo 8.61

Potências da matriz de Fibonacci

\(A = \left(\begin{smallmatrix}1&1\\1&0\end{smallmatrix}\right)\) (a matriz do Exemplo 8.34): \(A^2 = A+I\). Por indução, \(A^m = F_mA+F_{m-1}I\); em particular \(A^{10} = 55A+34I = \left(\begin{smallmatrix}89&55\\55&34\end{smallmatrix}\right)\), sem multiplicar matrizes.

Teorema 8.62

Polinômio mínimo

Existe um único polinômio mônico \(m_T\) de grau mínimo com \(m_T(T) = 0\). Ele divide todo polinômio \(p\) com \(p(T) = 0\) — em particular divide \(p_T\) — e suas raízes são exatamente os autovalores de \(T\).

Matrizes semelhantes têm o mesmo polinômio mínimo, porque \(q(PAP^{-1}) = Pq(A)P^{-1}\).

Demonstração

Existência: pelo Teorema 8.57, algum polinômio não nulo anula \(T\); tome um de grau mínimo e divida pelo coeficiente líder. Divide: se \(p(T) = 0\), divida: \(p = qm_T+r\) com \(\deg r<\deg m_T\). Então \(r(T) = p(T)-q(T)m_T(T) = 0\), e pela minimalidade, \(r = 0\). Unicidade: dois mônicos mínimos se dividem um ao outro e têm o mesmo grau, logo são iguais. Raízes: se \(\lambda\) é autovalor, \(m_T(\lambda) = 0\) (Proposição 8.17). Reciprocamente, se \(m_T(\lambda) = 0\), escreva \(m_T = (t-\lambda)q\); como \(\deg q<\deg m_T\), \(q(T)\neq0\), e existe \(v\) com \(w = q(T)v\neq0\). Então \((T-\lambda I)w = m_T(T)v = 0\): \(\lambda\) é autovalor, com autovetor \(w\).

Exemplo 8.63

Polinômio mínimo da identidade, de idempotentes e de nilpotentes

\(T = I\): \(m = t-1\). \(T\) idempotente, \(T\neq0,I\): \(m = t(t-1)\). \(T\) nilpotente com \(T^k = 0\neq T^{k-1}\): \(m = t^k\).

Exemplo 8.64

Mesmo polinômio característico, polinômios mínimos diferentes

\(A = \mathrm{diag}(2,2,3)\) e \(B = \left(\begin{smallmatrix}2&1&0\\0&2&0\\0&0&3 \end{smallmatrix}\right)\) têm o mesmo \(p = (2-\lambda)^2(3-\lambda)\). Os candidatos a \(m\) são os divisores mônicos com as duas raízes: \((t-2)(t-3)\) ou \((t-2)^2(t-3)\). Para \(A\), \((A-2I)(A-3I) = \mathrm{diag}(0,0,1)\,\mathrm{diag}(-1,-1,0) = 0\): \(m_A = (t-2)(t-3)\). Para \(B\), \((B-2I)(B-3I)\) tem entrada \((1,2)\) igual a \(1\cdot(-1) = -1\neq0\): \(m_B = (t-2)^2(t-3)\).

figura

O mesmo polinômio característico, polinômios mínimos diferentes. O \(1\) circulado em \(B\) é o que impede \((B-2I)(B-3I)\) de se anular, e é o que eleva o expoente de \(t-2\) no polinômio mínimo. Também mostra que \(p_A = p_B\) não implica que \(A\) e \(B\) sejam semelhantes (Definição 3.15).

Teorema 8.65

Diagonalizável se e somente se \(m_T\) tem raízes reais simples

\(T\) é diagonalizável se e somente se \(m_T\) tem todas as raízes reais e simples, isto é, \(m_T = (t-\lambda_1)\cdots(t-\lambda_k)\) com \(\lambda_i\) reais e distintos. Basta, para isso, que \(T\) seja anulado por algum polinômio com raízes reais simples.

figura

Os polinômios de Lagrange nos autovalores \(1,2,3\). Cada \(q_i\) vale \(1\) no seu autovalor e \(0\) nos outros, e os três somam \(1\). Aplicados a \(T\), viram as projeções sobre os autoespaços: \(q_i(T)\) é a identidade em \(V_{\lambda_i}\) e zero nos outros, e \(\sum_iq_i(T) = I\) é a decomposição \(V = \bigoplus_iV_{\lambda_i}\).

A demonstração amarra três coisas: os polinômios de Lagrange (Proposição 5.13), as somas diretas como famílias de projeções que somam a identidade (Proposição 2.33, Proposição 8.45), e a diagonalização (Teorema 8.23).

Demonstração

(\(\Rightarrow\)) Numa base de autovetores, \(\prod_i(T-\lambda_iI)\) anula cada vetor da base (o fator correspondente ao seu autovalor o anula, e os fatores comutam).

(\(\Leftarrow\)) Considere os polinômios de Lagrange nos nós \(\lambda_1,\ldots,\lambda_k\) (Proposição 5.13): \[q_i(t) = \prod_{j\neq i}\frac{t-\lambda_j}{\lambda_i-\lambda_j},\qquad q_i(\lambda_j) = \delta_{ij}.\] O polinômio \(\sum_iq_i\) tem grau \(\leq k-1\) e vale \(1\) nos \(k\) nós, logo é a constante \(1\) (a diferença teria \(k\) raízes). Portanto \(\sum_iq_i(T) = I\). Além disso, \((t-\lambda_i)q_i(t)\) é um múltiplo de \(\prod_j(t-\lambda_j)\), que anula \(T\); logo \((T-\lambda_iI)q_i(T) = 0\), isto é, \(\Ima q_i(T)\subset V_{\lambda_i}\). Então todo \(v\) se escreve \[v = \sum_iq_i(T)v\in V_{\lambda_1}+\cdots+V_{\lambda_k},\] e \(V\) é a soma dos autoespaços: \(T\) é diagonalizável (Teorema 8.23). A última frase do enunciado: se \(p(T) = 0\) com raízes simples, \(m_T\) divide \(p\) e também tem raízes simples.

Corolário 8.66

Involuções e projeções são diagonalizáveis

 

  1. \(\Theta(A) = A^t\) é diagonalizável: \(\Theta^2 = I\), e \(t^2-1 = (t-1)(t+1)\) tem raízes simples. Compare com o Exemplo 8.19.

  2. Toda projeção (\(T^2 = T\)) e toda involução (\(T^2 = I\)) são diagonalizáveis.

  3. Se \(T\) é diagonalizável e \(S\) é invariante, \(T|_S\) é diagonalizável: \(m_T(T|_S) = 0\), e \(m_T\) tem raízes simples.

Exercício 8.67

Todo operador idempotente é diagonalizável?

Verdadeiro ou falso? Se \(T^2 = T\), então \(T\) é diagonalizável.

Resolução

Verdadeira. \(T\) é anulado por \(t^2-t = t(t-1)\), de raízes reais simples; aplique o Teorema 8.65. (Ou, sem o teorema: \(V = \Nuc(T)\oplus\Ima(T)\) pela Proposição 2.36, com \(T = 0\) no primeiro e \(T = I\) no segundo.)

Exercício 8.68

Se \(T^2\) é diagonalizável, então \(T\) é diagonalizável?

Verdadeiro ou falso? Se \(T^2\) é diagonalizável, então \(T\) é diagonalizável.

Resolução

Falsa. \(T = \left(\begin{smallmatrix}0&1\\0&0\end{smallmatrix} \right)\): \(T^2 = 0\) é diagonal, e \(T\) não é diagonalizável (\(m_T = t^2\)). Outro contra-exemplo, sem autovalores reais: a rotação de \(90^\circ\), com \(T^2 = -I\).