Álgebra Linear I

Início · Capítulo 1 · Espaços vetoriais e transformações lineares

Espaços vetoriais: definição e exemplos

34 cards nesta seção
  1. Motivação 1.1Três situações com a mesma estrutura
  2. Definição 1.2Espaço vetorial
  3. Nota 1.3Três comentários sobre a definição de espaço vetorial
  4. Nota 1.4Os três blocos de axiomas
  5. Lema 1.5Cancelamento
  6. Proposição 1.6Unicidade do vetor nulo e do simétrico
  7. Proposição 1.7Produto por zero e por \(-1\)
  8. Corolário 1.8Se \(\lambda v = 0\), então \(\lambda = 0\) ou \(v = 0\)
  9. Nota 1.9O axioma (M2) não é supérfluo
  10. Nota 1.10Ordem das demonstrações
  11. Proposição 1.11Não existe espaço vetorial com dois elementos
  12. Nota 1.12Dois elementos com escalares \(\{0,1\}\)
  13. Exemplo 1.13O espaço \(\R^n\)
  14. Exemplo 1.14Matrizes \(m\times n\)
  15. Exemplo 1.15Polinômios
  16. Exemplo 1.16\(\R\) como espaço vetorial
  17. Exemplo 1.17Espaço nulo
  18. Nota 1.18Polinômios de grau exatamente \(n\)
  19. Exemplo 1.19Funções de um conjunto em \(\R\)
  20. Nota 1.20\(\R^n\), matrizes e sequências como espaços de funções
  21. Exemplo 1.21Funções de classe \(C^k\)
  22. Exemplo 1.22Polinômios como funções
  23. Exemplo 1.23Soluções de \(y''+y=0\)
  24. Exemplo 1.24Sequências convergentes e sequências de Fibonacci
  25. Nota 1.25Verificação dos axiomas num subconjunto de \(\mathcal{F}(X,\R)\)
  26. Exemplo 1.26Operações em \(\R^2\) que não dão espaço vetorial
  27. Exemplo 1.27\(\R^2\) com a origem deslocada
  28. Exemplo 1.28Reais positivos com produto e potência
  29. Definição 1.29Combinação linear
  30. Nota 1.30Somas sem parênteses
  31. Exemplo 1.31Combinação linear em \(\R^3\)
  32. Exemplo 1.32\(\cos^2t\) é combinação linear de \(1\) e \(\cos2t\)
  33. Exemplo 1.33\(\sen t\) não é combinação linear de \(1\) e \(\cos t\)
  34. Nota 1.34Igualdade de funções, ponto a ponto
Motivação 1.1

Três situações com a mesma estrutura

  1. Flechas no plano. Somamos pela regra do paralelogramo e multiplicamos por um número esticando a flecha. Em coordenadas, \((x_1,y_1)+(x_2,y_2) = (x_1+x_2,\,y_1+y_2)\) e \(\lambda(x,y) = (\lambda x,\lambda y)\).

  2. Funções. Se \(f,g:\R\to\R\), definimos \(f+g\) e \(\lambda f\) ponto a ponto: \((f+g)(t) = f(t)+g(t)\) e \((\lambda f)(t) = \lambda f(t)\). Polinômios somam-se e multiplicam-se por números da mesma forma, e o resultado é um polinômio.

  3. Soluções de uma equação diferencial. As funções \(\cos t\) e \(\sen t\) satisfazem \(y''+y = 0\). Então \(a\cos t+b\sen t\) também satisfaz, para quaisquer \(a,b\): \[(a\cos t+b\sen t)''+(a\cos t+b\sen t) = a(\cos''t+\cos t)+b(\sen''t+\sen t) = 0.\] Na física isso se chama princípio de superposição.

Nas três situações sabemos somar dois objetos e multiplicar um objeto por um número, e o resultado é um objeto do mesmo tipo. E as contas seguem as mesmas regras. A definição de espaço vetorial (Definição 1.2) isola essas regras.

figura

A mesma operação em dois mundos. À esquerda, a soma de flechas pelo paralelogramo. À direita, a soma de funções: em cada \(t_0\) (linha tracejada) o valor da soma verde é a soma dos valores azul e laranja. As funções da direita são soluções de \(y''+y=0\), e a soma também é.

Somar funções é somar infinitas coordenadas ao mesmo tempo, uma para cada \(t\) (Nota 1.20).

Definição 1.2

Espaço vetorial

Um espaço vetorial (real) é um conjunto \(V\) munido de duas operações, \[+:V\times V\to V,\ (u,v)\mapsto u+v,\qquad\quad \cdot:\R\times V\to V,\ (\lambda,v)\mapsto\lambda v,\] chamadas soma e produto por escalar, satisfazendo, para todos \(u,v,w\in V\) e \(\lambda,\mu\in\R\):

(A1) \(u+(v+w) = (u+v)+w\) (M1) \(\lambda(\mu v) = (\lambda\mu)v\)
(A2) \(u+v = v+u\) (M2) \(1v = v\)
(A3) existe \(0\in V\) com \(v+0 = v\) para todo \(v\) (D1) \(\lambda(u+v) = \lambda u+\lambda v\)
(A4) para cada \(v\) existe \(w\) com \(v+w = 0\) (D2) \((\lambda+\mu)v = \lambda v+\mu v\)

Os elementos de \(V\) são chamados vetores; os números reais, escalares. O elemento \(0\) de (A3) é o vetor nulo, e um \(w\) como em (A4) é um simétrico (ou oposto) de \(v\).

Em movimento: Vectors, what even are they? · Abstract vector spaces — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Nota 1.3

Três comentários sobre a definição de espaço vetorial

Três comentários sobre a Definição 1.2.

  1. As duas operações são funções com valores em \(V\): “a soma de dois vetores é um vetor” já está na definição, e é a primeira coisa a verificar num exemplo.

  2. O símbolo \(0\) aparece com dois sentidos — o número zero e o vetor nulo —, e a Proposição 1.7 obriga a distingui-los.

  3. Nenhum axioma fala de comprimento, ângulo ou produto de dois vetores. Isso vem com o produto interno (Definição 6.2), como estrutura adicional.

Nota 1.4

Os três blocos de axiomas

Os axiomas se agrupam em três blocos. (A1)–(A4) falam só da soma. (M1)–(M2) falam só do produto por escalar. (D1)–(D2) amarram as duas operações. Quando um exemplo falha, em geral falha num dos dois últimos blocos. No item (b) do Exemplo 1.26 só (D2) falha: o bloco que amarra as duas operações é o mais frágil.

Lema 1.5

Cancelamento

Se \(u+w = v+w\), então \(u = v\).

Demonstração

Seja \(w'\) um simétrico de \(w\) (A4). Somando \(w'\) aos dois lados, \[u = u+0 = u+(w+w') \overset{\text{(A1)}}{=} (u+w)+w' = (v+w)+w' \overset{\text{(A1)}}{=} v+(w+w') = v+0 = v.\]

Proposição 1.6

Unicidade do vetor nulo e do simétrico

A demonstração exigeLema 1.5Cancelamento

O vetor nulo é único, e cada vetor tem um único simétrico.

A partir de agora o simétrico de \(v\) é denotado \(-v\), e escrevemos \(u-v\) para \(u+(-v)\). Esta proposição é o que autoriza essa notação: um símbolo só pode designar um objeto se o objeto for único.

Demonstração

Se \(0\) e \(0'\) satisfazem (A3), então \[0' \overset{\text{(A3) para }0}{=} 0'+0 \overset{\text{(A2)}}{=} 0+0' \overset{\text{(A3) para }0'}{=} 0.\] Se \(w\) e \(w'\) são simétricos de \(v\), então \(v+w = 0 = v+w'\), isto é, \(w+v = w'+v\) por (A2), e o Lema 1.5 dá \(w = w'\).

Proposição 1.7

Produto por zero e por \(-1\)

A demonstração exigeLema 1.5Cancelamento

Para todos \(v\in V\) e \(\lambda\in\R\):

  1. \(0\,v = 0\) (à esquerda o número zero, à direita o vetor nulo);

  2. \(\lambda\,0 = 0\);

  3. \((-1)\,v = -v\).

Demonstração

(a) Como \(0 = 0+0\) em \(\R\), o axioma (D2) dá \[0v = (0+0)v = 0v+0v.\] Por (A3), também \(0v = 0+0v\); logo \(0+0v = 0v+0v\), e o Lema 1.5 dá \(0 = 0v\).

(b) Igual, usando (D1) no lugar de (D2): \(\lambda 0 = \lambda(0+0) = \lambda 0+\lambda 0\), e cancela-se.

(c) Basta ver que \((-1)v\) é um simétrico de \(v\), e usar a unicidade: \[v+(-1)v \overset{\text{(M2)}}{=} 1v+(-1)v \overset{\text{(D2)}}{=} (1+(-1))v = 0v = 0,\] a última igualdade pelo item (a).

Corolário 1.8

Se \(\lambda v = 0\), então \(\lambda = 0\) ou \(v = 0\)

Se \(\lambda v = 0\), então \(\lambda = 0\) ou \(v = 0\).

Demonstração

Suponha \(\lambda\neq0\). Então \[v \overset{\text{(M2)}}{=} 1v = (\lambda^{-1}\lambda)v \overset{\text{(M1)}}{=} \lambda^{-1}(\lambda v) = \lambda^{-1}0 = 0,\] pela Proposição 1.7(b).

Nota 1.9

O axioma (M2) não é supérfluo

O axioma (M2), \(1v=v\), parece supérfluo, e não é. Em qualquer \(V\) com uma soma satisfazendo (A1)–(A4), defina o produto por escalar trivial \(\lambda\cdot v := 0\) para todos \(\lambda\) e \(v\). Então (M1), (D1) e (D2) valem, porque os dois lados são \(0\); só (M2) falha, desde que \(V\neq\{0\}\). Sem (M2), o produto por escalar poderia não ter relação nenhuma com a soma. O Corolário 1.8 é falso nessa estrutura, e isso mostra onde (M2) é usado.

Nota 1.10

Ordem das demonstrações

A ordem em que as primeiras consequências dos axiomas são demonstradas: o cancelamento (Lema 1.5), a unicidade de \(0\) e de \(-v\) (Proposição 1.6), os produtos por zero e por \(-1\) (Proposição 1.7) e o Corolário 1.8.

figura

Cada caixa só usa as que estão à sua esquerda. O erro mais comum é demonstrar \(0v=0\) usando \((-1)v=-v\), isto é, andar contra uma seta: a tentativa “\(0v = (1-1)v = v-v = 0\)” usa o item (c) da Proposição 1.7, cuja demonstração usa o item (a). A pergunta a fazer em cada passo é “o que eu posso usar aqui?”. As duas caixas verdes usam (M2), e é por isso que a estrutura da Nota 1.9 as derruba.

Proposição 1.11

Não existe espaço vetorial com dois elementos

Não existe espaço vetorial real com exatamente dois elementos. Mais do que isso: um espaço vetorial \(V\neq\{0\}\) tem infinitos elementos.

Demonstração

Tome \(v\neq0\) em \(V\). Se \(\lambda v = \mu v\), então \((\lambda-\mu)v = \lambda v-\mu v = 0\), e o Corolário 1.8 dá \(\lambda = \mu\). Logo \(\lambda\mapsto\lambda v\) é injetora de \(\R\) em \(V\), e \(V\) contém uma cópia de \(\R\).

Nota 1.12

Dois elementos com escalares \(\{0,1\}\)

Na demonstração da Proposição 1.11, a passagem \((\lambda-\mu)v = \lambda v-\mu v\) usa (D2) e o item (c) da Proposição 1.7. A hipótese usada no fim é que \(\R\) é infinito. Se os escalares forem só \(\{0,1\}\), com \(1+1=0\), existe um “espaço vetorial” com dois elementos.

Exemplo 1.13

O espaço \(\R^n\)

\(\R^n\), com soma e produto por escalar coordenada a coordenada, é um espaço vetorial. O vetor nulo é \((0,\ldots,0)\) e \(-(x_1,\ldots,x_n) = (-x_1,\ldots,-x_n)\). A verificação dos axiomas se reduz, coordenada a coordenada, a propriedades dos números reais.

Em movimento: Vectors, what even are they? — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Exemplo 1.14

Matrizes \(m\times n\)

\(\Mat{m}{n}\), as matrizes \(m\times n\), com soma e produto por escalar entrada a entrada, formam um espaço vetorial. A verificação dos axiomas se reduz, entrada a entrada, a propriedades dos números reais.

Exemplo 1.15

Polinômios

\(\Pol{n}\), os polinômios de grau no máximo \(n\) (incluindo o polinômio nulo), e \(\Poli\), todos os polinômios, com a soma e o produto por escalar usuais, são espaços vetoriais.

Exemplo 1.16

\(\R\) como espaço vetorial

\(\R\) ele mesmo, com a soma e o produto usuais, é um espaço vetorial: é o caso \(n=1\) do Exemplo 1.13.

Exemplo 1.17

Espaço nulo

\(\{0\}\), com \(0+0 = 0\) e \(\lambda0 = 0\), é um espaço vetorial: o espaço nulo.

Nota 1.18

Polinômios de grau exatamente \(n\)

“Os polinômios de grau exatamente \(n\)” não formam espaço vetorial com a soma e o produto por escalar usuais, para \(n\geq1\). A soma de \(x^n+1\) com \(-x^n\) é \(1\), de grau \(0\): a soma sai do conjunto. E o conjunto não contém o polinômio nulo. É por isso que \(\Pol{n}\) é definido com “no máximo” (Exemplo 1.15).

Exemplo 1.19

Funções de um conjunto em \(\R\)

Seja \(X\) um conjunto qualquer, e seja \(\mathcal{F}(X,\R)\) o conjunto de todas as funções \(f:X\to\R\), com as operações ponto a ponto: \[(f+g)(x) = f(x)+g(x),\qquad (\lambda f)(x) = \lambda\,f(x),\qquad x\in X.\] Então \(\mathcal{F}(X,\R)\) é um espaço vetorial. O vetor nulo é a função identicamente nula, e \((-f)(x) = -f(x)\).

Demonstração

Cada axioma é uma igualdade entre funções, e duas funções são iguais quando assumem o mesmo valor em cada \(x\in X\). Avaliando em \(x\), cada axioma vira a propriedade correspondente dos números reais. Por exemplo, (D1): \[\big(\lambda(f+g)\big)(x) = \lambda\big(f(x)+g(x)\big) = \lambda f(x)+\lambda g(x) = (\lambda f+\lambda g)(x).\] Os outros sete são idênticos.

Nota 1.20

\(\R^n\), matrizes e sequências como espaços de funções

Três exemplos são casos de \(\mathcal{F}(X,\R)\) (Exemplo 1.19):

  • \(\R^n = \mathcal{F}(\{1,\ldots,n\},\R)\): a lista \((x_1,\ldots,x_n)\) é a função \(i\mapsto x_i\), e a soma coordenada a coordenada é a soma ponto a ponto;

  • \(\Mat{m}{n} = \mathcal{F}(\{1,\ldots,m\}\times\{1,\ldots,n\},\R)\): a matriz \((a_{ij})\) é a função \((i,j)\mapsto a_{ij}\);

  • as sequências reais formam \(\mathcal{F}(\N,\R)\): a sequência \((x_0,x_1,x_2,\ldots)\) é a função \(k\mapsto x_k\).

Um vetor de \(\R^n\) é uma função definida em \(n\) pontos. Uma função \(\R\to\R\) é um “vetor com uma coordenada para cada número real”.

figura

Três vetores, três gráficos. Um vetor de \(\R^3\) é uma função em três pontos; uma sequência é uma função nos naturais; uma função real é o caso em que o conjunto de índices é \(\R\). A soma, nos três casos, se faz ponto a ponto — isto é, coordenada a coordenada.

Exemplo 1.21

Funções de classe \(C^k\)

\(C^k(I)\), as funções \(I\to\R\) com \(k\) derivadas contínuas num intervalo \(I\), é um espaço vetorial: é um subconjunto de \(\mathcal{F}(I,\R)\) (Exemplo 1.19), com as mesmas operações. \(C^0(I)\) são as contínuas e \(C^\infty(I)\) as que têm derivadas de todas as ordens.

Exemplo 1.22

Polinômios como funções

Os polinômios \(\Poli\), vistos como funções \(\R\to\R\), formam um subconjunto de \(\mathcal{F}(\R,\R)\) (Exemplo 1.19) que é um espaço vetorial com as mesmas operações.

Exemplo 1.23

Soluções de \(y''+y=0\)

O conjunto das soluções de \(y''+y = 0\) em \(\mathcal{F}(\R,\R)\) (entre as funções duas vezes deriváveis) é um espaço vetorial, com as mesmas operações de \(\mathcal{F}(\R,\R)\) (Exemplo 1.19).

Exemplo 1.24

Sequências convergentes e sequências de Fibonacci

As sequências convergentes, e as sequências que satisfazem \(x_{k+2} = x_{k+1}+x_k\) (as “de Fibonacci”, com quaisquer dois termos iniciais), formam espaços vetoriais: cada um desses conjuntos é um subconjunto de \(\mathcal{F}(\N,\R)\) (Exemplo 1.19), com as mesmas operações.

Nota 1.25

Verificação dos axiomas num subconjunto de \(\mathcal{F}(X,\R)\)

Nos exemplos de subconjuntos de \(\mathcal{F}(X,\R)\) que são espaços vetoriais com as mesmas operações (Exemplo 1.21, Exemplo 1.22, Exemplo 1.23 e Exemplo 1.24), a verificação tem a mesma forma, e é curta. Os oito axiomas já valem em \(\mathcal{F}(X,\R)\), logo continuam valendo para os elementos do subconjunto; só é preciso verificar que as operações não saem do subconjunto e que o vetor nulo e os simétricos estão nele. Para \(C^k(I)\), a soma de funções \(C^k\) é \(C^k\); para as soluções de \(y''+y=0\), é a conta da Motivação 1.1; para as sequências, o limite da soma é a soma dos limites, e se \(x\) e \(y\) satisfazem a recorrência, \(x+\lambda y\) também satisfaz. Verifica-se sempre a mesma coisa: a operação não sai do conjunto. Esse padrão é formalizado no critério de subespaço (Proposição 2.3).

Exemplo 1.26

Operações em \(\R^2\) que não dão espaço vetorial

Um espaço vetorial é um conjunto com duas operações. O mesmo conjunto pode ter operações diferentes, e com umas ser espaço vetorial e com outras não. Em \(V = \R^2\):

  1. \((x_1,y_1)\oplus(x_2,y_2) = (x_1,y_1)\) e \(\alpha\odot(x,y) = (\alpha x,\alpha y)\). Falha (A2): \((1,0)\oplus(0,0) = (1,0)\), mas \((0,0)\oplus(1,0) = (0,0)\). O axioma (A3) vale, e vale para qualquer escolha de \(z\) como vetor nulo, porque \(v\oplus z = v\) sempre. O que falha é (A4): fixado o vetor nulo \(z\), a equação \(v\oplus w = z\) diz \(v = z\), e não tem solução \(w\) quando \(v\neq z\). Falha também (D2): \((1+1)\odot(1,0) = (2,0)\), enquanto \(1\odot(1,0)\oplus1\odot(1,0) = (1,0)\). Os demais valem.

  2. \((x_1,y_1)\oplus(x_2,y_2) = (x_1+x_2,\,y_1+y_2)\) e \(\alpha\odot(x,y) = (x,\alpha y)\). A soma é a usual, logo (A1)–(A4) valem. (M1), (M2) e (D1) valem. Falha (D2): \[(1+1)\odot(1,0) = (1,0),\qquad\text{mas}\qquad 1\odot(1,0)\oplus1\odot(1,0) = (2,0).\]

Exemplo 1.27

\(\R^2\) com a origem deslocada

Em \(V=\R^2\), ponha \[(x_1,y_1)\oplus(x_2,y_2) = (x_1+x_2-1,\ y_1+y_2+2),\qquad \alpha\odot(x,y) = (\alpha x-\alpha+1,\ \alpha y+2\alpha-2).\] Isto é um espaço vetorial, e o vetor nulo é \((1,-2)\): de fato \((x,y)\oplus(1,-2) = (x+1-1,\ y-2+2) = (x,y)\). A explicação de todos os axiomas de uma vez é a mudança de coordenadas \[\varphi(x,y) = (x-1,\ y+2),\] que leva o ponto \((1,-2)\) na origem. Uma conta direta dá \[\varphi(u\oplus v) = \varphi(u)+\varphi(v),\qquad \varphi(\alpha\odot u) = \alpha\,\varphi(u),\] com as operações usuais do lado direito. Isto é: \(\oplus\) e \(\odot\) são a soma e o produto usuais, feitos a partir da origem \((1,-2)\) em vez de \((0,0)\). Como \(\varphi\) é bijetora, cada axioma para \((\oplus,\odot)\) é o mesmo axioma para \((+,\cdot)\), transportado por \(\varphi\).

figura

A mesma geometria do plano, com a origem mudada de lugar. As flechas partem do vetor nulo \((1,-2)\), e \(u\oplus v\) é a ponta da diagonal do paralelogramo. As fórmulas assustam; a figura mostra que nada de novo aconteceu.

Exemplo 1.28

Reais positivos com produto e potência

Seja \(V = (0,\infty)\), os reais positivos, com \[x\oplus y = xy,\qquad \lambda\odot x = x^\lambda.\] Os axiomas são as regras de potência: (D1) é \((xy)^\lambda = x^\lambda y^\lambda\), (D2) é \(x^{\lambda+\mu} = x^\lambda x^\mu\), (M1) é \((x^\mu)^\lambda = x^{\lambda\mu}\), (M2) é \(x^1 = x\). O vetor nulo é o número \(1\), porque \(x\oplus1 = x\); e o simétrico de \(x\) é \(1/x\). Aqui o logaritmo faz o papel do \(\varphi\) do Exemplo 1.27: \(\log(x\oplus y) = \log x+\log y\) e \(\log(\lambda\odot x) = \lambda\log x\).

figura

Os reais positivos com o produto, e o logaritmo que os transforma em \(\R\) com a soma. O vetor nulo de cima é o \(1\), que vai no \(0\) de baixo. O número \(0\) não está no espaço de cima, e nenhum vetor dele “falta”: todo real é o logaritmo de algum positivo.

Definição 1.29

Combinação linear

Sejam \(v_1,\ldots,v_k\in V\). Uma combinação linear de \(v_1,\ldots,v_k\) é um vetor da forma \[a_1v_1+a_2v_2+\cdots+a_kv_k,\qquad a_1,\ldots,a_k\in\R.\] Os \(a_i\) são os coeficientes da combinação.

Em movimento: Linear combinations, span, and basis vectors — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Nota 1.30

Somas sem parênteses

A expressão \(a_1v_1+\cdots+a_kv_k\) não tem parênteses, e isso precisa de justificativa. Por (A1), \((u+v)+w = u+(v+w)\); por indução em \(k\), qualquer forma de pôr parênteses numa soma de \(k\) vetores dá o mesmo resultado, e por (A2) a ordem das parcelas também não importa. A indução não é feita aqui; é por causa dela que (A1) e (A2) estão na lista.

Exemplo 1.31

Combinação linear em \(\R^3\)

Em \(\R^3\), \((3,1,5)\) é combinação linear de \((1,0,1)\) e \((0,1,2)\): \[(3,1,5) = 3(1,0,1)+(0,1,2).\]

Exemplo 1.32

\(\cos^2t\) é combinação linear de \(1\) e \(\cos2t\)

Em \(\mathcal{F}(\R,\R)\), \(\cos^2t\) é combinação linear de \(1\) e \(\cos2t\), porque \(\cos^2t = \tfrac12\cdot1+\tfrac12\cos2t\).

Exemplo 1.33

\(\sen t\) não é combinação linear de \(1\) e \(\cos t\)

Em \(\mathcal{F}(\R,\R)\), \(\sen t\) não é combinação linear de \(1\) e \(\cos t\). Suponha que \(\sen t = a+b\cos t\) para todo \(t\). Avaliando em \(t=0\) e \(t=\pi\): \[0 = a+b,\qquad 0 = a-b,\] logo \(a=b=0\), e então \(\sen t = 0\) para todo \(t\), o que é falso em \(t = \pi/2\).

Nota 1.34

Igualdade de funções, ponto a ponto

O Exemplo 1.33 usa uma técnica geral: uma igualdade entre funções vale em cada ponto, e escolher bem os pontos transforma a pergunta num sistema linear nos coeficientes. É usar a Nota 1.20 ao contrário: de uma função em \(\R\) olhamos só algumas coordenadas.