Álgebra Linear I

Início · Capítulo 9 · Teorema espectral e formas quadráticas

Cônicas e quádricas

15 cards nesta seção
  1. Definição 9.29Cônicas e quádricas
  2. Construção 9.30Redução de uma cônica ou quádrica: rotação e translação
  3. Proposição 9.31O tipo da cônica \(q=1\) pelo determinante e pelo traço
  4. Exemplo 9.32Uma elipse: \(5x^2-4xy+8y^2 = 36\)
  5. Exemplo 9.33Uma parábola: \(x^2+2xy+y^2-2x+2y-3 = 0\)
  6. Exemplo 9.34Uma hipérbole: \(x^2-y^2+2x+4y-4 = 0\)
  7. Exemplo 9.35Um par de retas paralelas: \(x^2+4xy+4y^2-6x-12y+8 = 0\)
  8. Nota 9.36Quatro cônicas lado a lado
  9. Nota 9.37Quádricas pela assinatura
  10. Exemplo 9.38Um cilindro elíptico: \(x^2+y^2+z^2+2xy = 1\)
  11. Exemplo 9.39Um hiperboloide de duas folhas: \(xy+yz+zx = 1\)
  12. Exemplo 9.40Um hiperboloide de uma folha: \(x^2+y^2-z^2 = 1\)
  13. Exemplo 9.41Um cone: \(x^2+y^2-z^2 = 0\)
  14. Exemplo 9.42Um elipsoide: \(x^2+2y^2+3z^2-2xz = 1\)
  15. Nota 9.43Onde a álgebra linear reaparece
Definição 9.29

Cônicas e quádricas

Uma cônica (em \(\R^2\)) ou quádrica (em \(\R^3\)) é o conjunto dos \(x\) com \[x^tAx+b^tx+c = 0,\qquad A\ \text{simétrica não nula},\ b\in\R^n,\ c\in\R.\]

Construção 9.30

Redução de uma cônica ou quádrica: rotação e translação

 

  1. Rotação. Diagonalize \(A = QDQ^t\) com \(Q\) ortogonal, \(\det Q = 1\). Nas coordenadas \(y = Q^tx\) (isto é, \(x = Qy\)), a equação fica \[\lambda_1y_1^2+\cdots+\lambda_ny_n^2+b'^ty+c = 0,\qquad b' = Q^tb.\] Os termos cruzados desapareceram. Os novos eixos são as direções dos autovetores.

  2. Translação. Para cada \(\lambda_i\neq0\), complete o quadrado: \(\lambda_iy_i^2+b'_iy_i = \lambda_i\big(y_i+\frac{b'_i}{2\lambda_i}\big)^2-\frac{b_i'^2}{4\lambda_i}\). Os termos lineares restantes são os das variáveis com \(\lambda_i = 0\).

  3. Leitura. A forma reduzida diz o tipo; os semi-eixos são \(\sqrt{k/\lambda_i}\) quando a equação reduzida é \(\sum\lambda_iz_i^2 = k\) com \(k/\lambda_i>0\).

No passo 1 pode-se tomar \(\det Q = 1\) (trocando o sinal de uma coluna), de modo que \(Q\) é uma rotação. A ordem importa: primeiro girar, depois transladar. Completar quadrados antes de girar não funciona quando há termo \(xy\), e a rotação não mexe na constante nem cria termos cruzados. A translação muda o centro; a rotação muda os eixos. Os dois juntos são um movimento rígido: a curva não se deforma, e os semi-eixos lidos na forma reduzida são os verdadeiros.

Cônicas: girar, completar quadrados e o sinal dos autovalores
Proposição 9.31

O tipo da cônica \(q=1\) pelo determinante e pelo traço

Seja \(q(x,y) = ax^2+2bxy+cy^2\), \(A = \left(\begin{smallmatrix}a&b\\b&c\end{smallmatrix}\right)\). A curva \(q = 1\) é

  • uma elipse se \(\det A>0\) e \(\tr A>0\); vazia se \(\det A>0\) e \(\tr A<0\);

  • uma hipérbole se \(\det A<0\);

  • um par de retas paralelas ou o vazio se \(\det A = 0\) (segundo o sinal de \(\tr A\)).

Os eixos são as direções dos autovetores, e os semi-eixos, \(1/\sqrt{\lambda_i}\) para \(\lambda_i>0\).

Esta proposição é a lei de inércia em dimensão \(2\): \(\det\) e \(\tr\) bastam para conhecer a assinatura, sem calcular autovetores (a curva é elipse se e somente se \(ac-b^2>0\) e \(a>0\); sem a segunda condição, isso é falso).

Demonstração

Em coordenadas próprias, \(q = \lambda_1y_1^2+\lambda_2y_2^2\), com \(\det A = \lambda_1\lambda_2\) e \(\tr A = \lambda_1+\lambda_2\). \(\det>0\): mesmos sinais, e o traço diz qual. \(\det<0\): sinais opostos. \(\det = 0\): um autovalor nulo, \(\lambda y^2 = 1\).

Exemplo 9.32

Uma elipse: \(5x^2-4xy+8y^2 = 36\)

\(5x^2-4xy+8y^2 = 36\). Pelo Exemplo 9.17, autovalores \(4,9\) com autovetores \((2,1)\) e \((1,-2)\); nas coordenadas \(y_1,y_2\) ao longo deles, \(4y_1^2+9y_2^2 = 36\), isto é, \[\frac{y_1^2}{9}+\frac{y_2^2}{4} = 1:\] elipse de centro na origem, semi-eixo \(3\) na direção de \((2,1)\) e \(2\) na de \((1,-2)\).

Com termos lineares. A cônica \[5x^2-4xy+8y^2-16x-8y-16 = 0\] tem a mesma parte quadrática e os termos lineares \(b^tx\), com \(b = (-16,-8)\). Primeiro gira-se, como acima: com \(x = Qy\) (\(Q\) do Exemplo 9.17), \(b^tx = (Q^tb)^ty\) e \(Q^tb = (-8\sqrt5,0)\), porque \(b = -8(2,1)\) está na direção do primeiro autovetor. A equação fica \[4y_1^2+9y_2^2-8\sqrt5\,y_1-16 = 0.\] Depois completa-se o quadrado, \(4y_1^2-8\sqrt5\,y_1 = 4(y_1-\sqrt5)^2-20\): \[4(y_1-\sqrt5)^2+9y_2^2 = 36,\] e translada-se a origem, \(z_1 = y_1-\sqrt5\), \(z_2 = y_2\): \(\frac{z_1^2}{9}+\frac{z_2^2}{4} = 1\). É a mesma elipse, com centro em \(y = (\sqrt5,0)\), isto é, em \(x = Qy = (2,1)\).

Exemplo 9.33

Uma parábola: \(x^2+2xy+y^2-2x+2y-3 = 0\)

\(x^2+2xy+y^2-2x+2y-3 = 0\). \(A = \left(\begin{smallmatrix}1&1\\1&1\end{smallmatrix}\right)\), autovalores \(2\) (direção \((1,1)\)) e \(0\) (direção \((1,-1)\)). Com \(x = \frac{u+v}{\sqrt2}\), \(y = \frac{u-v}{\sqrt2}\): \(x^2+2xy+y^2 = (x+y)^2 = 2u^2\) e \(-2x+2y = -2(x-y) = -2\sqrt2\,v\). A equação fica \[2u^2-2\sqrt2\,v-3 = 0,\qquad v = \frac{u^2}{\sqrt2}-\frac{3}{2\sqrt2}:\] parábola, com eixo na direção \((1,-1)\) e vértice em \(u = 0\), \(v = -\frac{3}{2\sqrt2}\), isto é, no ponto \((x,y) = (-\frac34,\frac34)\). O autovalor nulo não permite completar quadrado em \(v\): é o que faz a parábola.

Exemplo 9.34

Uma hipérbole: \(x^2-y^2+2x+4y-4 = 0\)

\(x^2-y^2+2x+4y-4 = 0\). Sem termo cruzado: só transladar. \[(x+1)^2-1-(y-2)^2+4-4 = 0,\qquad (x+1)^2-(y-2)^2 = 1:\] hipérbole de centro \((-1,2)\), semi-eixo \(1\) na direção \(x\), assíntotas de inclinação \(\pm1\).

Exemplo 9.35

Um par de retas paralelas: \(x^2+4xy+4y^2-6x-12y+8 = 0\)

\(x^2+4xy+4y^2-6x-12y+8 = 0\). Com \(s = x+2y\): \(s^2-6s+8 = (s-2)(s-4) = 0\). Par de retas paralelas \(x+2y = 2\) e \(x+2y = 4\) (caso degenerado: \(\det A = 0\)).

Sabe-se antes de fazer contas que a cônica é degenerada: o polinômio se fatora, porque a parte linear é múltiplo de \(x+2y\), a direção do autovalor não nulo.

Nota 9.36

Quatro cônicas lado a lado

figura

Quatro cônicas, na mesma escala. Tracejados: os eixos próprios (a, b) e as assíntotas (c). Em (a) e (b) a rotação era necessária; em (c) só a translação; (d) é o caso degenerado de uma forma de posto \(1\) que se fatora.

Nota 9.37

Quádricas pela assinatura

Para \(x^tAx = 1\) em \(\R^3\) com \(A\) invertível, a forma reduzida é \(\pm z_1^2\pm z_2^2\pm z_3^2 = 1\) após reescalar, e o tipo depende só da assinatura:

assinatura forma reduzida superfície
\((3,0)\) \(z_1^2+z_2^2+z_3^2 = 1\) elipsoide
\((2,1)\) \(z_1^2+z_2^2-z_3^2 = 1\) hiperboloide de uma folha
\((1,2)\) \(z_1^2-z_2^2-z_3^2 = 1\) hiperboloide de duas folhas
\((0,3)\) \(-z_1^2-z_2^2-z_3^2 = 1\) vazio

Com um autovalor nulo aparecem os cilindros (elíptico, hiperbólico); com o nível \(0\) no lugar de \(1\), o cone.

figura

As três quádricas não degeneradas e não vazias. O número de sinais \(-\) decide a topologia: nenhum dá uma superfície fechada; um dá uma superfície conexa com um “buraco” (um círculo na cintura); dois dão duas peças. Pode-se mostrar que \(\{x^tAx = 1\}\) é, a menos de deformação, \(S^{p-1}\times\R^m\).

Exemplo 9.38

Um cilindro elíptico: \(x^2+y^2+z^2+2xy = 1\)

\(x^2+y^2+z^2+2xy = 1\): \(A = \left(\begin{smallmatrix}1&1&0\\1&1&0\\0&0&1\end{smallmatrix} \right)\), autovalores \(2,0,1\). Forma reduzida \(2u^2+w^2 = 1\) (sem \(v\)): cilindro elíptico com eixo na direção \((1,-1,0)\), do autovalor \(0\).

Exemplo 9.39

Um hiperboloide de duas folhas: \(xy+yz+zx = 1\)

\(xy+yz+zx = 1\): \(A = \frac12(J-I)\), autovalores \(1,-\frac12,-\frac12\) (Exemplo 9.24), assinatura \((1,2)\): hiperboloide de duas folhas, com eixo na direção \((1,1,1)\).

Uma equação sem nenhum quadrado dá um hiperboloide de duas folhas; não há como adivinhar sem a assinatura.

Exemplo 9.40

Um hiperboloide de uma folha: \(x^2+y^2-z^2 = 1\)

\(x^2+y^2-z^2 = 1\): assinatura \((2,1)\), hiperboloide de uma folha.

Exemplo 9.41

Um cone: \(x^2+y^2-z^2 = 0\)

\(x^2+y^2-z^2 = 0\): nível \(0\), cone (a figura do Teorema 9.20).

Exemplo 9.42

Um elipsoide: \(x^2+2y^2+3z^2-2xz = 1\)

\(x^2+2y^2+3z^2-2xz = 1\): \(A = \left(\begin{smallmatrix}1&0&-1\\0&2&0\\-1&0&3\end{smallmatrix} \right)\). O autovalor \(2\) vem de \(y\); o bloco \(\left(\begin{smallmatrix}1&-1\\-1&3\end{smallmatrix} \right)\) tem \(\tr = 4\) e \(\det = 2\), logo autovalores \(2\pm\sqrt2>0\). Assinatura \((3,0)\): elipsoide, com semi-eixos \(\frac{1}{\sqrt2}\), \(\frac{1}{\sqrt{2+\sqrt2}}\), \(\frac{1}{\sqrt{2-\sqrt2}}\).

O atalho: quando a matriz se parte em blocos, os autovalores se calculam bloco a bloco (Proposição 8.45), e para decidir a assinatura de um bloco \(2\times2\) bastam \(\det\) e \(\tr\) (Proposição 9.31).

Nota 9.43

Onde a álgebra linear reaparece

Seis lugares em que o que se fez aqui é a primeira linha de um teorema de outra área.

  1. Toda rotação de \(\R^3\) tem um eixo (Teorema 9.10). O cálculo \(\det(A-I) = (-1)^3\det(A-I)\) é toda a demonstração, e ele falha em dimensão par: em \(\R^4\) há rotações sem vetor fixo. É o teorema de Euler da mecânica do corpo rígido.

  2. Não se penteia uma bola sem redemoinho. Um campo linear \(x\mapsto Ax\) é tangente à esfera se e somente se \(A\) é antissimétrica; em dimensão ímpar, \(\det A = \det A^t = (-1)^n\det A\) força \(\det A = 0\), e o campo se anula num ponto da esfera. É o caso linear do teorema da bola cabeluda.

  3. A exponencial de uma matriz. \(e^{PDP^{-1}} = Pe^DP^{-1}\) resolve \(x' = Ax\) como a diagonalização resolveu Fibonacci (Exemplo 8.34); \(\det e^A = e^{\tr A}\) sai da triangularização (Corolário 8.55); e \(e^A\) é uma rotação quando \(A\) é antissimétrica. É a porta de entrada dos grupos de Lie.

  4. Pontos críticos na esfera. A função \(\langle Ax,x\rangle\) na esfera tem \(2n\) pontos críticos, \(\pm u_i\) (os autovetores, Proposição 9.6); perto de cada um ela é uma forma quadrática cuja assinatura conta os autovalores menores (Definição 9.21). A soma alternada \(\sum(-1)^{\text{índice}}\) dá \(2\) ou \(0\) conforme a paridade, qualquer que seja \(A\): é a característica de Euler da esfera, e é o começo da teoria de Morse.

  5. A assinatura decide a forma da superfície (Nota 9.37). \(\{x^tAx = 1\}\) é \(S^{p-1}\times\R^m\): a lei de inércia é o que garante que “hiperboloide de uma folha” é um conceito bem definido.

  6. Um grafo é um complexo (Definição 7.23). Com \(d\) a diferença ao longo das arestas, \(\dim N(d)\) conta as componentes conexas e \(\dim H^1\) os ciclos independentes; a característica de Euler (Teorema 7.32) dá \(V-A = \text{componentes}-\text{ciclos}\). E o laplaciano \(L = d^\dagger d\) é simétrico, positivo semidefinido, com núcleo contando componentes: contar buracos virou diagonalizar uma matriz simétrica.