11.3 Densidade condicional

Dadas duas variáveis aleatórias simples XX e YY, na seção anterior definimos a variável aleatória 𝔼⁢[X|Y],\mathbb{E}[X\,|\,Y], que assume o valor 𝔼⁢[X|Y=y]\mathbb{E}[X\,|\,Y=y] no evento {Y⁢(ω)=y}\{Y(\omega)=y\}. Naquele contexto, o valor 𝔼⁢[X|Y=y]\mathbb{E}[X\,|\,Y=y] para yy tal que ℙ⁢(Y=y)>0\mathbb{P}(Y=y)>0 pode ser calculado a partir da distribuição condicional

(11.25) (11.25) ℙX|Y⁢(B|y)=ℙ⁢(X∈B|Y=y)=ℙ⁢(X∈B,Y=y)ℙ⁢(Y=y),\mathbb{P}_{X|Y}(B|y)=\mathbb{P}(X\in B\,|\,Y=y)=\frac{\mathbb{P}(X\in B,Y=y)}% {\mathbb{P}(Y=y)},

como feito nas Seções 3.4 e 5.4. Entretanto, quando YY é uma variável aleatória contínua, a fórmula (11.25) resulta na forma indeterminada 00\frac{0}{0}. Gostaríamos de poder definir ℙX|Y⁢(B|y)\mathbb{P}_{X|Y}(B|y) de forma tal que permita recuperar as propriedades vistas na seção anterior.

Nesta seção, consideraremos o caso em que XX e YY têm densidade conjunta. Faremos uma apresentação informal, buscando motivar as definições e propriedades mais importantes. Uma justificativa rigorosa das propriedades aqui enunciadas será dada na Seção 11.6.

Por analogia a (11.14), definimos a densidade condicional de XX dado YY por

(11.26) (11.26) fX|Y⁢(x|y)=fX,Y⁢(x,y)fY⁢(y)f_{X|Y}(x|y)=\frac{f_{X,Y}(x,y)}{f_{Y}(y)}

para todo yy tal que fY⁢(y)>0f_{Y}(y)>0. Para os pontos yy onde fY⁢(y)=0f_{Y}(y)=0, definimos, por convenção fX|Y⁢(x|y)=fX⁢(x)f_{X|Y}(x|y)=f_{X}(x).

Observe-se que, se multiplicamos a equação acima por Δ⁢x\Delta x, obtemos

fX|Y⁢(x|y)⁢Δ⁢x\displaystyle f_{X|Y}(x|y)\,\Delta x =fX,Y⁢(x,y)⁢Δ⁢x⁢Δ⁢yfY⁢(y)⁢Δ⁢y≈ℙ(x⩽X⩽x+Δx,y⩽Y⩽y+Δy)ℙ⁢(y⩽Y⩽y+Δ⁢y)\displaystyle=\frac{f_{X,Y}(x,y)\Delta x\Delta y}{f_{Y}(y)\Delta y}\approx% \frac{\mathbb{P}(x\leqslant X\leqslant x+\Delta x,y\leqslant Y\leqslant y+% \Delta y)}{\mathbb{P}(y\leqslant Y\leqslant y+\Delta y)}
=ℙ⁢(x⩽X⩽x+Δ⁢x|y⩽Y⩽y+Δ⁢y).\displaystyle=\mathbb{P}(x\leqslant X\leqslant x+\Delta x|y\leqslant Y% \leqslant y+\Delta y).

Ou seja, coerentemente com a ideia de que fX⁢(x)⁢Δ⁢xf_{X}(x)\,\Delta x representa a probabilidade de XX estar em [x,x+Δ⁢x][x,x+\Delta x], aqui fX|Y⁢(x|y)⁢Δ⁢xf_{X|Y}(x|y)\,\Delta x representa a probabilidade condicional de tal evento dado que YY está em [y,y+Δ⁢y][y,y+\Delta y].

A densidade condicional de XX dado YY define uma distribuição parametrizada por yy, que chamamos distribuição condicional de XX dado YY, dada por

(11.27) (11.27) ℙX|Y⁢(B|y)=∫BfX|Y⁢(x|y)⁢dx\mathbb{P}_{X|Y}(B|y)=\int_{B}f_{X|Y}(x|y)\,\mathrm{d}x

para todo intervalo B⊆ℝB\subseteq\mathbb{R}. Repare na semelhança com (11.19).

Assim como vimos no caso discreto, a distribuição conjunta de XX e YY, ou de XX isoladamente, pode ser calculada a partir dessa distribuição condicional, tomando-se a média sobre yy, isto é,

(11.28) (11.28) ℙ⁢(X∈B,Y∈C)=∫CℙX|Y⁢(B|y)⁢fY⁢(y)⁢dy,\mathbb{P}(X\in B,Y\in C)=\int_{C}\mathbb{P}_{X|Y}(B|y)f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y,

para todos os intervalos BB e CC, veja a semelhança com (11.21).

Observe que logramos obter expressões úteis envolvendo probabilidades condicionais, apesar de estarmos condicionando em um evento de medida zero. Essas expressões justificam-se pela expansão

(11.29) (11.29) ∬B×CfX,Y⁢(x,y)⁢dx⁢dy=∫C(∫BfX,Y⁢(x,y)fY⁢(y)⁢dx)⁢fY⁢(y)⁢dy.\iint_{B\times C}f_{X,Y}(x,y)\mathrm{d}x\mathrm{d}y=\int_{C}\Big{(}\int_{B}% \tfrac{f_{X,Y}(x,y)}{f_{Y}(y)}\mathrm{d}x\Big{)}f_{Y}(y)\mathrm{d}y.
Exemplo 11.30.

Sejam XX e YY com densidade conjunta

fX,Y⁢(x,y)={6⁢x⁢y⁢(2−x−y),0<x<1,0<y<1,0,caso contrário.f_{X,Y}(x,y)=\begin{cases}6xy(2-x-y),&0<x<1,0<y<1,\\ 0,&\text{caso contr\'{a}rio}.\end{cases}

Vamos determinar a densidade condicional de XX dado YY. Primeiramente,

fY⁢(y)=∫−∞+∞fX,Y⁢(x,y)⁢dx=∫016⁢x⁢y⁢(2−x−y)⁢dx=4⁢y−3⁢y2f_{Y}(y)=\int_{-\infty}^{+\infty}f_{X,Y}(x,y)\mathrm{d}x=\int_{0}^{1}6xy(2-x-y% )\mathrm{d}x=4y-3y^{2}

se y∈(0,1)y\in(0,1) e 0 caso contrário. Para y∈[0,1]y\in[0,1], calculamos

fX|Y⁢(x|y)=fX,Y⁢(x,y)fY⁢(y)=6⁢x⁢(2−x−y)4−3⁢y⁢𝟙[0,1]⁢(x)f_{X|Y}(x\,|\,y)=\frac{f_{X,Y}(x,y)}{f_{Y}(y)}=\frac{6x(2-x-y)}{4-3y}\mathds{1% }_{[0,1]}(x)

Para y∉[0,1]y\not\in[0,1], tomamos, por exemplo, fX|Y⁢(x|y)=6⁢x⁢(1−x)⁢𝟙[0,1]⁢(x)f_{X|Y}(x\,|\,y)=6x(1-x)\mathds{1}_{[0,1]}(x). ∎

Exemplo 11.31.

Sejam XX e YY com densidade conjunta

fX,Y⁢(x,y)={12⁢y⁢e−x⁢y,0<x<∞⁢ e ⁢0<y<2,0,caso contrário.f_{X,Y}(x,y)=\begin{cases}\frac{1}{2}ye^{-xy},&0<x<\infty\text{ \ e \ }0<y<2,% \\ 0,&\text{caso contr\'{a}rio}.\end{cases}

Vamos determinar a densidade condicional de XX dado YY. Temos

fY⁢(y)=∫−∞+∞fX,Y⁢(x,y)⁢dx=12⁢∫0∞y⁢e−x⁢y⁢dx=12f_{Y}(y)=\int_{-\infty}^{+\infty}f_{X,Y}(x,y)\mathrm{d}x=\frac{1}{2}\int_{0}^{% \infty}ye^{-xy}\mathrm{d}x=\frac{1}{2}

para 0<y<20<y<2. Logo Y∼𝒰⁢[0,2]Y\sim\mathcal{U}[0,2]. Assim, para y∈(0,2)y\in(0,2) temos

fX|Y⁢(x|y)=fX,Y⁢(x,y)fY⁢(y)={y⁢e−x⁢y,x>0,0,x⩽0.∎f_{X|Y}(x\,|\,y)=\frac{f_{X,Y}(x,y)}{f_{Y}(y)}=\begin{cases}ye^{-xy},&x>0,\\ 0,&x\leqslant 0.\end{cases}\qed

Uma situação muito comum na prática é quando são especificadas fYf_{Y} e fX|Yf_{X|Y}. Neste caso, podemos estudar a variável XX a partir de YY e da informação sobre como esta influencia aquela. Mais precisamente, podemos usar

fX,Y⁢(x,y)=fX|Y⁢(x|y)⁢fY⁢(y)f_{X,Y}(x,y)=f_{X|Y}(x|y)\,f_{Y}(y)

e

fX⁢(x)=∫−∞+∞fX|Y⁢(x|y)⁢fY⁢(y)⁢dy.f_{X}(x)=\int_{-\infty}^{+\infty}f_{X|Y}(x|y)f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y.
Exemplo 11.32.

Sejam XX e YY variáveis aleatórias tais que Y∼𝒰⁢[0,2]Y\sim\mathcal{U}[0,2] e, condicionado a que Y=yY=y, XX tem distribuição uniforme em [0,y][0,y]. Isto é,

fX|Y⁢(x|y)={1y,0<x<y<2,0,caso contrário.f_{X|Y}(x\,|\,y)=\begin{cases}\frac{1}{y},&0<x<y<2,\\ 0,&\text{caso contr\'{a}rio}.\end{cases}

Sendo assim, podemos calcular as densidades conjunta e marginal utilizando as fórmulas acima, obtendo

fX,Y⁢(x,y)=fX|Y⁢(x|y)⁢fY⁢(y)={12⁢y,0<x<y<2,0,caso contrário.f_{X,Y}(x,y)=f_{X|Y}(x|y)\,f_{Y}(y)=\begin{cases}\frac{1}{2y},&0<x<y<2,\\ 0,&\text{caso contr\'{a}rio}.\end{cases}

e

fX⁢(x)=∫−∞+∞fX|Y⁢(x|y)⁢fY⁢(y)⁢dy=∫x212⁢y⁢12⁢dy=−12⁢log⁡x2f_{X}(x)=\int_{-\infty}^{+\infty}f_{X|Y}(x|y)f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y=\int_{x}^{2% }\frac{1}{2y}\,\frac{1}{2}\,\mathrm{d}y=-\frac{1}{2}\log\frac{x}{2}

para x∈(0,2]x\in(0,2] e zero caso contrário. ∎

Exemplo 11.33.

Sejam XX e YY variáveis aleatórias, onde Y∼Gama(2,λ)Y\sim\mathop{\mathrm{Gama}}\nolimits(2,\lambda) e, condicionado que Y=yY=y, XX tem distribuição 𝒰⁢[0,y]\mathcal{U}[0,y]. Isto é, a densidade condicional fX|Yf_{X|Y} é especificada e vale 1y⁢𝟙[0,y]⁢(x)\tfrac{1}{y}\mathds{1}_{[0,y]}(x). Sendo assim, podemos determinar a densidade de XX como

fX⁢(x)\displaystyle f_{X}(x) =∫−∞+∞fX|Y⁢(x|y)⁢fY⁢(y)⁢dy=𝟙[0,+∞)⁢(x)⁢∫x+∞1y⁢λ2⁢y⁢e−λ⁢y⁢dy\displaystyle=\int_{-\infty}^{+\infty}f_{X|Y}(x|y)f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y=% \mathds{1}_{[0,+\infty)}(x)\int_{x}^{+\infty}\tfrac{1}{y}\lambda^{2}ye^{-% \lambda y}\,\mathrm{d}y
=λ⁢e−λ⁢x⁢𝟙[0,+∞)⁢(x).\displaystyle=\lambda e^{-\lambda x}\mathds{1}_{[0,+\infty)}(x).

Isto é, X∼Exp(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Exp}}\nolimits(\lambda). ∎

A partir da distribuição condicional de XX dado YY, podemos calcular a esperança condicional de XX dado YY. Por analogia a (11.15), definimos

(11.34) (11.34) 𝔼⁢[X|Y=y]=∫−∞+∞x⋅fX|Y⁢(x|y)⁢dx.\mathbb{E}[X|Y=y]=\int_{-\infty}^{+\infty}x\cdot f_{X|Y}(x|y)\,\mathrm{d}x.
Exemplo 11.35.

Se XX e YY são as variáveis do Exemplo 11.32, podemos calcular

𝔼⁢[X|Y=y]=∫−∞+∞x⋅fX|Y⁢(x|y)⁢dx=∫0yxy⁢dx=y2,\mathbb{E}[X|Y=y]=\int_{-\infty}^{+\infty}x\cdot f_{X|Y}(x|y)\,\mathrm{d}x=% \int_{0}^{y}\frac{x}{y}\,\mathrm{d}x=\frac{y}{2},

o que já era de se esperar dado que, condicionado ao evento {Y=y}\{Y=y\}, a variável XX tem distribuição uniforme em [0,y][0,y]. ∎

Como na seção anterior, definimos 𝔼⁢[X|Y]\mathbb{E}[X|Y] como a variável aleatória que toma valor 𝔼⁢[X|Y=y]\mathbb{E}[X|Y=y] no evento {Y=y}\{Y=y\}. Observe que 𝔼⁢[X|Y]\mathbb{E}[X|Y] é uma variável aleatória que pode ser expressa como uma função de YY.

Exemplo 11.36.

No Exemplo 11.31, calculemos 𝔼⁢[X2|Y]\mathbb{E}\left[X^{2}\big{|}Y\right] e 𝔼⁢[X2|Y=1]\mathbb{E}\left[X^{2}\big{|}Y=1\right].

Considerando a densidade condicional já calculada no Exemplo 11.31, temos

𝔼⁢[X2|Y=y]=∫0+∞x2⁢y⁢e−x⁢y⁢dx=2y⁢∫0+∞e−y⁢x⁢dx=2y2.\mathbb{E}[X^{2}\big{|}Y=y]=\int_{0}^{+\infty}x^{2}ye^{-xy}\mathrm{d}x=\frac{2% }{y}\int_{0}^{+\infty}e^{-yx}\mathrm{d}x=\frac{2}{y^{2}}.

Logo,

𝔼⁢[X2|Y]=2Y2 e 𝔼⁢[X2|Y=1]=2.∎\mathbb{E}\big{[}X^{2}\big{|}Y\big{]}=\frac{2}{Y^{2}}\quad\text{ e }\quad% \mathbb{E}\big{[}X^{2}\big{|}Y=1\big{]}=2.\qed

Como no Teorema 11.5, vale a propriedade da esperança iterada:

(11.37) (11.37) 𝔼⁢X=𝔼⁢[𝔼⁢[X|Y]].\mathbb{E}X=\mathbb{E}\big{[}\mathbb{E}[X|Y]\big{]}.

No contexto da seção anterior, esta fórmula toma a forma

𝔼⁢X=∑y𝔼⁢[X|Y=y]⁢pY⁢(y),\mathbb{E}X=\sum_{y}\mathbb{E}[X|Y=y]\,p_{Y}(y),

enquanto que, no contexto desta seção, temos

𝔼⁢X=∫−∞+∞𝔼⁢[X|Y=y]⁢fY⁢(y)⁢dy.\mathbb{E}X=\int_{-\infty}^{+\infty}\mathbb{E}[X|Y=y]\,f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y.
Exemplo 11.38.

Continuando os Exemplos 11.32 e 11.35,

𝔼⁢X=∫−∞+∞𝔼⁢[X|Y=y]⁢fY⁢(y)⁢dy=∫02y2⁢12⁢dy=12.∎\mathbb{E}X=\int_{-\infty}^{+\infty}\mathbb{E}[X|Y=y]\,f_{Y}(y)\,\mathrm{d}y=% \int_{0}^{2}\frac{y}{2}\,\frac{1}{2}\,\mathrm{d}y=\frac{1}{2}.\qed