D.6 Distribuição condicional regular

Nesta seção, vamos provar os Teoremas 11.57 e 11.61.

Para isso, vamos construir uma função FX|YF_{X|Y} mensurável em ambas as variáveis e tal que

FX,Y⁢(x,y)=∫−∞yFX|Y⁢(x|y)⁢ℙY⁢(d⁢y)F_{X,Y}(x,y)=\int_{-\infty}^{y}F_{X|Y}(x|y)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)

para todos x,y∈ℝx,y\in\mathbb{R}. Começamos estudando uma função G:ℝ2→ℝG:\mathbb{R}^{2}\to\mathbb{R} que terá determinadas propriedades em “quase todos” os pontos xx e yy, depois usar GG para construir FX|YF_{X|Y} e, finalmente, usar FX|YF_{X|Y} para construir ℙX|Y\mathbb{P}_{X|Y}.

Sejam XX e YY variáveis aleatórias definidas em um mesmo espaço de probabilidade.

Lema D.19.

Para todo x∈ℝx\in\mathbb{R}, existe uma função mensurável G⁢(x|⋅):ℝ→[0,1]G(x\,|\,\cdot\,):\mathbb{R}\to[0,1], tal que

ℙ⁢(X⩽x,Y∈C)=∫CG⁢(x|y)⁢ℙY⁢(d⁢y)\mathbb{P}(X\leqslant x,Y\in C)=\int_{C}G(x|y)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)

para todo C∈ℬC\in\mathcal{B}.

Demonstração.

Seja x∈ℝx\in\mathbb{R} fixo. Defina

ν⁢(C)=ℙ⁢(X⩽x,Y∈C),μ⁢(C)=ℙ⁢(Y∈C)\nu(C)=\mathbb{P}(X\leqslant x,Y\in C),\qquad\mu(C)=\mathbb{P}(Y\in C)

para todo C∈ℬC\in\mathcal{B}. Como ν≪μ\nu\ll\mu, pelo Teorema de Radon-Nikodým, existe uma função mensurável G⁢(x|⋅):ℝ→ℝG(x|\,\cdot\,):\mathbb{R}\to\mathbb{R}, tal que

ℙ⁢(X⩽x,Y∈C)=∫CG⁢(x,y)⁢ℙY⁢(d⁢y)para todo C∈ℬ.\mathbb{P}(X\leqslant x,Y\in C)=\int_{C}G(x,y)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)% \quad\text{para todo $C\in\mathcal{B}$}.

Como essa integral nunca é negativa, G⁢(x,y)⩾0G(x,y)\geqslant 0 para ℙY\mathbb{P}_{Y}-quase todo y∈ℝy\in\mathbb{R}. Como ℙ⁢(X>x,Y∈C)=∫C[1−G⁢(x,y)]⁢ℙY⁢(d⁢y)\mathbb{P}(X>x,Y\in C)=\int_{C}[1-G(x,y)]\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y) nunca é negativo, segue que G⁢(x,y)⩽1G(x,y)\leqslant 1 para ℙY\mathbb{P}_{Y}-quase todo y∈ℝy\in\mathbb{R}. Modificando G⁢(x,y)G(x,y) em um conjunto de medida ℙY\mathbb{P}_{Y} nula, podemos supor que G⁢(x,y)∈[0,1]G(x,y)\in[0,1] para todo y∈ℝy\in\mathbb{R}. ∎

Para construir FX|YF_{X|Y} a partir de GG, usaremos o fato de que ℚ\mathbb{Q} é enumerável e denso em ℝ\mathbb{R}, e que uniões enumeráveis de conjuntos de medida nula têm medida nula.

Lema D.20.

Existe uma função FX|Y(⋅|⋅):ℝ2→ℝF_{X|Y}(\cdot|\cdot):\mathbb{R}^{2}\to\mathbb{R} com as seguintes propriedades:

  1. (1)
    ​

    FX|Y(⋅|y)F_{X|Y}(\,\cdot\,|y) é uma função de distribuição para todo y∈ℝy\in\mathbb{R} fixo,

  2. (2)
    ​

    FX|Y⁢(q|⋅)F_{X|Y}(q|\,\cdot\,) é uma função mensurável para todo q∈ℚq\in\mathbb{Q} fixo,

  3. (3)
    ​

    FX,Y⁢(q,y)=∫−∞yFX|Y⁢(q|s)⁢ℙY⁢(d⁢s)F_{X,Y}(q,y)=\int_{-\infty}^{y}F_{X|Y}(q|s)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}s) para todos q∈ℚq\in\mathbb{Q} e y∈ℝy\in\mathbb{R}.

Demonstração.

Para cada q∈ℚq\in\mathbb{Q}, seja G⁢(q|⋅)G(q|\cdot) a função dada pelo Lema D.19. Agora, para cada par de racionais r<qr<q, seja

A1,r,q={y∈ℝ:G⁢(r|y)⩽G⁢(q|y)}∈ℬ.A_{1,r,q}=\{y\in\mathbb{R}:G(r\,|\,y)\leqslant G(q\,|\,y)\}\in\mathcal{B}.

Definindo A1=∩r,qA1,r,qA_{1}=\cap_{r,q}A_{1,r,q}, temos que ℙY⁢(A1)=1\mathbb{P}_{Y}(A_{1})=1, pois ℙY⁢(A1,r,q)=1\mathbb{P}_{Y}(A_{1,r,q})=1 para todos r < q. Com efeito, ∫C[G(q|y)−G(r|y)]ℙY(dy)=ℙ(r<X⩽q,Y∈C)⩾0\int_{C}[G(q|y)-G(r|y)]\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)=\mathbb{P}(r<X\leqslant q,Y% \in C)\geqslant 0 para todo C∈ℬC\in\mathcal{B}, donde concluímos que o integrando é não-negativo para ℙY\mathbb{P}_{Y}-quase todo y∈ℝy\in\mathbb{R}.

Em seguida, para cada q∈ℚq\in\mathbb{Q}, definimos

A2,q={y∈A1:G⁢(q+1n|y)→G⁢(q|y)}∈ℬ.A_{2,q}=\{y\in A_{1}:G(q+\tfrac{1}{n}\,|\,y)\to G(q\,|\,y)\}\in\mathcal{B}.

Observe que

∫ℝG⁢(q+1n|y)⁢ℙY⁢(d⁢y)=ℙ⁢(X⩽q+1n)→ℙ⁢(X⩽q)=∫ℝG⁢(q|y)⁢ℙY⁢(d⁢y),\int_{\mathbb{R}}G(q+\tfrac{1}{n}|y)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)=\mathbb{P}(X% \leqslant q+\tfrac{1}{n})\to\mathbb{P}(X\leqslant q)=\int_{\mathbb{R}}G(q|y)\,% \mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y),

logo, pelo Teorema da Convergência Dominada,

∫ℝ[limnG⁢(q+1n|y)]⁢ℙY⁢(d⁢y)=∫ℝG⁢(q|y)⁢ℙY⁢(d⁢y),\int_{\mathbb{R}}[{\lim}_{n}G(q+\tfrac{1}{n}|y)]\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)=% \int_{\mathbb{R}}G(q|y)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y),

e, como o integrando do lado direito é cotado superiormente pelo integrando do lado esquerdo, eles têm que ser iguais para ℙY\mathbb{P}_{Y}-quase todo yy, ou seja, ℙ⁢(A2,q)=1\mathbb{P}(A_{2,q})=1. Novamente, tomamos A2=∩q∈ℚA2,qA_{2}=\cap_{q\in\mathbb{Q}}A_{2,q} e definimos agora

A={y∈A2:limk→+∞G⁢(k|y)=1,limk→−∞G⁢(k|y)=0}∈ℬA=\{y\in A_{2}:\lim_{k\to+\infty}G(k\,|\,y)=1,\lim_{k\to-\infty}G(k\,|\,y)=0\}% \in\mathcal{B}

e, pelo mesmo argumento utilizado para A2,qA_{2,q}, pode-se mostrar que ℙY⁢(A)=1\mathbb{P}_{Y}(A)=1.

Finalmente definimos, para y∈Ay\in A e x∈ℝx\in\mathbb{R}

FX|Y(x|y)=inf{G(q|y):q∈ℚ,q>x}.F_{X|Y}(x|y)=\inf\{G(q|y):q\in\mathbb{Q},q>x\}.

Para y∈Acy\in A^{c}, definimos FX|Y⁢(x|y)=FX⁢(x)F_{X|Y}(x|y)=F_{X}(x).

Observe que, pela definição de GG e FX|YF_{X|Y}, a função FX|Y(⋅|y)F_{X|Y}(\,\cdot\,|y) é uma função de distribuição para todo y∈ℝy\in\mathbb{R}, como afirmado. Seja x∈ℚx\in\mathbb{Q} fixo. Observe que FX|Y⁢(x|y)=G⁢(x|y)⁢𝟙A⁢(y)+FX⁢(x)⁢𝟙Ac⁢(y)F_{X|Y}(x|y)=G(x|y)\mathds{1}_{A}(y)+F_{X}(x)\mathds{1}_{A^{c}}(y) e, pelo Lema D.19, isso define uma função mensurável de yy. Ademais, como ℙY⁢(A)=1\mathbb{P}_{Y}(A)=1, o item (3) também segue diretamente do Lema D.19. ∎

Na demonstração acima, a função FX|YF_{X|Y} foi obtida através do Lema D.19, que não diz como calculá-la. Ressaltamos que a função definida por (11.60) também satisfaz a essas três propriedades, porém a demonstração desse fato exige ferramentas de Teoria da Medida que vão muito além do escopo deste livro (ver Teorema 6.66 em [GM09]).

Demonstração do Teorema 11.57.

Seja FX|YF_{X|Y} como dada pelo Lema D.20.

Preliminarmente, afirmamos que, para todo q∈ℚq\in\mathbb{Q}, vale

(D.21) (D.21) ℙ⁢(X⩽q,Y∈C)=∫CFX|Y⁢(q|s)⁢ℙY⁢(d⁢s) para todo ⁢C∈ℬ.\mathbb{P}(X\leqslant q,Y\in C)=\int_{C}F_{X|Y}(q|s)\,\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d% }s)\quad\text{ para todo }C\in\mathcal{B}.

Com efeito, ambos os lados determinam medidas de probabilidade em CC e, pelo item (3) do Lema D.20, essas medidas coincidem na classe {(−∞,y]}y∈ℝ\{(-\infty,y]\}_{y\in\mathbb{R}}, que forma um π\pi-sistema e contém {(−∞,n]}n\{(-\infty,n]\}_{n}, cuja união é ℝ\mathbb{R}, logo, pelo Teorema 3.37 (unicidade de medidas), elas coincidem para todo C∈ℬC\in\mathcal{B}.

Para cada y∈ℝy\in\mathbb{R}, definimos ℙX|Y(⋅|y)\mathbb{P}_{X|Y}(\cdot\,|\,y) como a medida de probabilidade em ℝ\mathbb{R} correspondente à função de distribuição FX|Y(⋅|y)F_{X|Y}(\cdot\,|\,y). Seja 𝒟\mathcal{D} a classe de conjuntos B∈ℬB\in\mathcal{B} tais que ℙX|Y⁢(B|y)\mathbb{P}_{X|Y}(B\,|\,y) é uma função mensurável de yy e tais que

(D.22) (D.22) ℙ⁢(X∈B,Y∈C)=∫CℙX|Y⁢(B|y)⁢ℙY⁢(d⁢y)para todo C∈ℬ.\mathbb{P}(X\in B,Y\in C)=\int_{C}\mathbb{P}_{X|Y}(B\,|\,y)\,\mathbb{P}_{Y}(% \mathrm{d}y)\quad\text{para todo $C\in\mathcal{B}$}.

Observe que 𝒟\mathcal{D} é um λ\lambda-sistema (exercício!). Seja 𝒞\mathcal{C} a classe dos conjuntos da forma B=(−∞,q]B=(-\infty,q] com q∈ℚq\in\mathbb{Q}. Para B∈𝒞B\in\mathcal{C}, ℙX|Y⁢(B|y)\mathbb{P}_{X|Y}(B\,|\,y) é uma função mensurável de yy pelo item (2) do Lema D.20; ademais, (D.22) se reduz a (D.21). Ou seja, 𝒞⊆𝒟\mathcal{C}\subseteq\mathcal{D}. Como 𝒞\mathcal{C} é um π\pi-sistema e σ⁢(𝒞)=ℬ\sigma(\mathcal{C})=\mathcal{B}, segue do Teorema π⁢-⁢λ\pi\text{-}\lambda que 𝒟=ℬ\mathcal{D}=\mathcal{B}, o que prova o Teorema 11.57. ∎

Demonstração do Teorema 11.61.

A ideia da prova é estudar a classe das funções gg para as quais vale o enunciado do teorema. Consideramos inicialmente g⁢(x,y)=𝟙A⁢(x,y)g(x,y)=\mathds{1}_{A}(x,y), onde A∈ℬ⁢(ℝ2)A\in\mathcal{B}(\mathbb{R}^{2}). Seja 𝒟\mathcal{D} a classe dos conjuntos A∈ℬ⁢(ℝ2)A\in\mathcal{B}(\mathbb{R}^{2}) para os quais a integral interna em (11.62), com 𝟙A\mathds{1}_{A} no lugar de gg, fornece uma função mensurável de yy e vale a igualdade (11.62). Observe que 𝒟\mathcal{D} é um λ\lambda-sistema (exercício!). Seja 𝒞={B×C:B,C∈ℬ⁢(ℝ)}\mathcal{C}=\{B\times C:B,C\in\mathcal{B}(\mathbb{R})\}. Pela Definição 11.56, temos que, para todos B,C∈ℬ⁢(ℝ)B,C\in\mathcal{B}(\mathbb{R})

∫ℝ𝟙B×C⁢(x,y)⁢ℙX|Y⁢(d⁢x|y)=𝟙C⁢(y)⁢ℙX|Y⁢(B|y),\int_{\mathbb{R}}\mathds{1}_{B\times C}(x,y)\,\mathbb{P}_{X|Y}(\mathrm{d}x|y)=% \mathds{1}_{C}(y)\mathbb{P}_{X|Y}(B|y),

que é uma função mensurável de yy e cuja integral com respeito a ℙY\mathbb{P}_{Y} é igual a 𝔼⁢[𝟙B×C⁢(X,Y)]\mathbb{E}[\mathds{1}_{B\times C}(X,Y)]. Ou seja, 𝒞⊆𝒟\mathcal{C}\subseteq\mathcal{D}. Como 𝒞\mathcal{C} é um π\pi-sistema e σ⁢(𝒞)=ℬ⁢(ℝ2)\sigma(\mathcal{C})=\mathcal{B}(\mathbb{R}^{2}), segue do Teorema π⁢-⁢λ\pi\text{-}\lambda que 𝒟=ℬ⁢(ℝ2)\mathcal{D}=\mathcal{B}(\mathbb{R}^{2}). Isso prova o teorema para funções mensuráveis gg que apenas assumem valores 0 e 11. Por linearidade, vale o teorema para funções simples não-negativas. Finalmente, seja g:ℝ2→[0,+∞]g:\mathbb{R}^{2}\to[0,+\infty] uma função mensurável. Tome 0⩽gn↑g0\leqslant g_{n}\uparrow g, onde as funções gng_{n} são simples. Pelo Teorema da Convergência Monótona, ∫ℝg⁢(x,y)⁢ℙX|Y⁢(d⁢x|y)=limn∫ℝgn⁢(x,y)⁢ℙX|Y⁢(d⁢x|y)\int_{\mathbb{R}}g(x,y)\,\mathbb{P}_{X|Y}(\mathrm{d}x|y)=\lim_{n}\int_{\mathbb% {R}}g_{n}(x,y)\,\mathbb{P}_{X|Y}(\mathrm{d}x|y) e, como limite de funções mensuráveis é mensurável, segue que a integral interna em (11.62) fornece uma função mensurável de yy. Como

𝔼⁢[gn⁢(X,Y)]=∫ℝ(∫ℝgn⁢(x,y)⁢ℙX|Y⁢(d⁢x|y))⁢ℙY⁢(d⁢y)\mathbb{E}[g_{n}(X,Y)]=\int_{\mathbb{R}}\Big{(}\int_{\mathbb{R}}g_{n}(x,y)\,% \mathbb{P}_{X|Y}(\mathrm{d}x|y)\Big{)}\mathbb{P}_{Y}(\mathrm{d}y)

para todo nn, pelo Teorema da Convergência Monótona, vale a igualdade em (11.62). Isso conclui prova do Teorema 11.61. ∎